Supercopa 91 – Nosso Título nº 28 – A Tradição Azul Se Estabelece

Mundo Azul,

 

Uma Página Heroica Imortal Marcante da Nossa História – O Cruzeiro depois da conquista da Libertadores de 1976, seguido pelo vice-campeonato da Libertadores no ano seguinte (derrota de 5 x 4 nos pênaltis no jogo desempate em Montevidéu), havia ficado longe das disputas continentais até 1988, quando perdeu a final da Supercopa para o Racing (derrota de 2 x 1 na Argentina e empate de 1 x 1 no Mineirão). Em 1989 e 1990, o Cruzeiro não foi bem e não chegou nem às semifinais da Supercopa.

 

Se a administração de Benito Masci marcou a redenção financeira do Cruzeiro, na segunda parte dos anos 80, César Masci ao assumir o time em 1990 e após fazer caixa com a venda de Careca para o futebol português, sonhou um pouco mais alto e fez contratações de peso para a temporada de 1991, trazendo para a Toca da Raposa nomes como Mário Tilico (emprestado pelo São Paulo), Charles (comprado do Bahia por US$ 500 mil), Marco Antônio Boiadeiro (veio para o clube após ter sido campeão brasileiro com o Vasco) e Luiz Fernando Rosa Flores, o baixinho bom de bola que veio do futebol português após passar pelo Inter.

 

Com as saídas de Paulo Isidoro e Careca, ainda trouxe do Bahia o ponta-esquerda Marquinhos, que tinha sido destaque do tricolor baiano onde ajudou a fazer de Charles um artilheiro respeitado e muito valorizado, para substituir o nosso grande ponta esquerda Édson, que havia se contundido gravemente.  

 

Estes se juntaram a Paulo César Borges, Nonato, Adilson Batista, Paulão, Ademir e aos garotos da base Zelão (só não jogou a final) e Macalé que sempre entravam nas partidas.

 

O caminho do Cruzeiro na competição foi o seguinte:

Trajetória do Cruzeiro na Supercopa Libertadores 1991

 

1ª Fase: Colo-Colo (0 x 0 no Mineirão e 0 x 0 em Santiago – pênaltis: Cruzeiro 5 x 4)

 

2ª Fase: Nacional de Montevidéu – vitória de 4 x 0 no Mineirão (com 3 gols de Charles e 1 de Boiadeiro) e derrota de 3 x 0 em Montevidéu (sufoco no fim do jogo)

 

SEMIFINAL: Olímpia – 1 x 1 no Mineirão (gol de Marquinhos) e 0 x 0 em Asunción – pênaltis: Cruzeiro 5 x 3) – saímos do estádio às 3 da madrugada, sob escolta policial. Como não me lembrar da tal mesa redonda que o Sr. Oswaldo Faria (Rádio Itatiaia de BH – coragem para dizer a verdade) participou em Asunción antes do jogo contra o Olímpia, no qual disse que o Cruzeiro era um time fraco, que se defendia mal (tanto que tinha levado 3 gols do Nacional em Montevidéu), que o bom de BH era o Atlético-MG. No ônibus de volta ao hotel, vínhamos ouvindo a narração dos pênaltis e o narrador paraguaio dizia assim... que se detengam las brujas... gol de Crucero e repetiu isto nas 5 cobranças perfeitas.

 

A um dado momento Tony Jose pergunta a Ademir o que ele havia achado mais legal... Ele, de forma irônica, disse que a delegação do Cruzeiro havia ouvido a entrevista do seu Oswaldo Faria para a imprensa paraguaia e que foi bom que eles acreditaram nele e foram surpreendidos. O sarro foi grande e imediato, eu imitava o narrador e dizia que era o secador atleticano... pense num cara que ficou vermelho de raiva) ...

 

FINAL: River Plate - 2 x 0 em Nuñez (O Cruzeiro havia até jogado bem, perdido grandes chances de gol, porém, foi vítima de 2 erros fatais nossos: um pênalti numa mão absurda de Boiadeiro no 1º tempo e o gol de Jorge Higuain num erro na saída de gol do nosso goleiro Paulo César Borges já no final do jogo) e 3 x 0 no Mineirão (Ademir e 2 de Mário Tilico).

 

A história das finais não havia começado bem para os lados do time azul, pois havíamos perdido de 2 x 0 para o River em Nuñez com direito a pênalti infantilmente cometido pelo Boiadeiro. Logo ele que com o medo terrível de viajar de avião, havia requerido um grande esforço de alguns conselheiros cruzeirenses para colocá-lo no voo para a capital da Argentina. Tiveram que dar voltas de carro com ele na região de Lagoa Santa e Confins, inclusive requerendo a umas doses de whisky até que o mesmo se decidisse pelo embarque.

 

Mas, tudo de bom estava reservado para o jogo da volta. No avião, lembro-me de ter voltado de Ezeiza assentado perto do meu maior ídolo no comando do time azul em todos os tempos, o “mago” Ênio Andrade.  Ele, quieto no canto dele, quando Roberto Marques (narrador da rádio Inconfidência) lhe faz uma pergunta inquietante.

 

E aí Seu Ênio temos como reverter o resultado? No ato ele disse assim: vamos ser campeões. E justificou a sua resposta. O River Plate abusava das ligações diretas, buscando Silvani que fechava da esquerda para o meio. Ele disse que se o Cruzeiro ganhasse as segundas bolas, marcasse a saída de bola do River Plate lhes restariam muito poucas opções ofensivas, porque eles iriam passar a dar os chutões e seriam obrigados a nos devolver a bola. E desta forma, na pressão e na força da nossa torcida seria possível reverter a grande vantagem de 2 x 0 que eles tinham (se eles fizessem o gol teríamos que fazer 4 neles, tarefa muito mais difícil).

 

E o “mago” trabalhou belissimamente a cabeça dos nossos jogadores para esta final. O time entrou em campo com uma gana incrível, mas, havia chovido uma barbaridade e embora pressionasse o time argentino, o Cruzeiro errava o último passe ou senão o ataque morria nas mãos de Comizzo. Mas, ocorreu uma mudança muito importante no Cruzeiro. Eram 17’ quando Luiz Fernando Flores sentiu uma contusão e deu lugar a Macalé. E o garoto, cria da base do Cruzeiro, entrou bem demais na partida. Começou a ganhar todas as disputas na força e isto fez o Cruzeiro aumentar o volume e a pressão. A torcida começou a cantar nas arquibancadas e o time literalmente comprou a briga dentro de campo.

 

Eram 33’ do primeiro tempo, com o Cruzeiro atacando para o lado da Lagoa, num córner pela direita, Marquinhos bate de pé trocado e Ademir dá a famosa raspadinha de costas e a bola entra no gol de Comizzo no lado direito. Logo, o grande capitão, que era pródigo nas ações defensivas fazia o gol de abertura do placar. E saiu maluco correndo para abraçar seu Ênio que treinara a jogada de forma incessante na véspera da partida.

 

O gol acendeu a mística da torcida cruzeirense nas grandes finais, que passou a torcer à moda argentina, não parando de incentivar os nossos jogadores, que dividiam todas com fome voraz. Em que pesem as outras oportunidades, o Cruzeiro levou para os vestiários a vantagem mínima.

 

Logo no início da etapa final, Célio Gaúcho bate o lateral para Marquinhos e este ajeita para Macalé que faz excepcional lançamento e acha Mário Tilico no facão entrando nas costas da defesa. O velocíssimo atacante antecipou a Enrique e com um leve toque deslocou o goleiro do River Plate e saiu em desabalada carreira celebrando com a torcida cruzeirense. A bola parecia ir em câmera lenta e mal tocou a rede, mas, promoveu uma explosão de alegria incrível nas arquibancadas do Mineirão.

 

Meu grande amigo Roberto Marques estava maluco narrando o jogo pela Rádio Inconfidência e a todo o momento lembrava da conversa do avião e de como tudo o que o seu Ênio havia nos falado, se desenhava dentro do campo. Era impressionante a capacidade que ele tinha de enxergar o jogo e mudar o posicionamento do time nos vestiários. Ele fez Marquinhos girar por dentro e abrir espaço nas costas do lateral por onde Macalé entrava. E fez a inversão de Charles com Tilico, para que se pudesse explorar a lentidão da zaga do River Plate.

 

O Cruzeiro foi com tudo para cima deles, mas, perdia as chances seguidamente com Macalé, Charles, Mário Tilico e Marquinhos parando no goleiro Comizzo, um verdadeiro paredão.

 

O placar de 2 x 0 levaria a decisão aos pênaltis, mas, aos 30’ do segundo tempo, Charles recebe de Boiadeiro a bola pela direita, faz o drible girando em cima da marcação de Rivarola, que vai acompanhando Charles e quando tenta dar o bote é driblado. Charles corta em direção ao fundo e espera a chegada de Mário Tilico pelo comando e rola a bola com açúcar. Tilico não vacila e chuta forte para vencer a Comizzo e fazer o gol da vantagem definitiva no placar.

 

A torcida em êxtase não parava de gritar. Eles ainda tentaram uma estocada com Ramon Diaz, mas, a saída corajosa de Paulo César Borges (ou Higuita como o meu irmão Joaquim Duarte gostava de chamá-lo só para me zoar, por suas saídas estabanadas do gol) que abafou a jogada. Neste dia Macalé marcou com a gana de Ademir, atacou com a inteligência de Dirceu Lopes e Palhinha, criou várias situações de gols, e mesmo tendo ganhado de 3 x 0 uma das grandes figuras em campo, acabou sendo o goleiro Comizzo (durante anos foi sonho nosso vê-lo jogando com a camisa celeste tão espetacular foi sua atuação).

 

Neste dia, Nonato jogando pela direita (Zelão sentiu uma contusão) e Célio Gaúcho pela esquerda, anularam Medina Bello e J. J. Borelli, que eram pontas muito bons, velozes e de drible fácil. Paulão e Adilson fungaram no cangote do Ramon Diaz, não o deixaram ter vantagem. O nosso ataque resolveu. Charles jogou tanto e tão bem que Diego Maradona acabou comprando o seu passe e dando de presente ao Boca Jrs., que era o seu time de coração, pagando US$ 2 milhões pelo jogador.

 

O Cruzeiro voltava a frequentar as páginas dos periódicos Sul-Americanos, recuperava a fama, era a cada dia mais temido e respeitado nas Américas e uma de nossas marcas era a incrível média de aproveitamento de pontos contra os argentinos, nos gramados de Minas Gerais, pois até aquela data o Cruzeiro jamais perdera deles jogando no Mineirão.

 

Louve-se o excepcional trabalho feito pela diretoria cruzeirense na recepção e trato aos membros da Confederação Sul-Americana que evitaram que o clube fosse prejudicado pelas arbitragens na competição. Naquele dia a torcida do Cruzeiro saiu do Mineirão com a alma lavada e fez uma festa incrível em toda Belo Horizonte, e pela primeira vez o pirulito da Praça Sete amanheceu vestido com as nossas cores. O azul e branco tomou conta da cidade e o grito de Supercampeão, foi ecoado no Mineirão em todos os jogos a partir da data.

 

Lembrar que neste hiato entre 1976 e 1991, apenas Flamengo (81) e Grêmio (83) haviam conquistado títulos da Libertadores para o Brasil.  

 

Por esta razão, o Brasil era representado nas Supercopas por Santos, Cruzeiro, Flamengo e Grêmio. Com as conquistas de 1992 e 1993, o São Paulo se juntou a este seleto grupo e posteriormente foi a vez do Vasco da Gama ter a honra de participar das últimas edições.

 

A SUPERCOPA foi substituída pela COPA MERCOSUL a partir de 1998 (neste ano tivemos a disputa de ambas competições).  

 

SÚMULA DA PARTIDA: Cruzeiro 3 x 0 River Plate.

 

Reveja o jogo na íntegra: 

Cruzeiro 3 x 0 River Plate ARG pela Final da Supercopa da Libertadores de 1991 - Jogo Completo

 

♦ Motivo: Final da Supercopa dos Campeões da Libertadores de 1991.

♦ Data, Local, Hora: 20/11/91 (4ª Feira) – Mineirão, BH, 21:00 h

☺ Cruzeiro: Paulo César Borges, Nonato, Paulão, Adílson Baptista e Célio Gaúcho; Ademir, Marco Antônio Boiadeiro e Luiz Fernando (Macalé); Mário Tilico, Charles e Marquinhos.

Técnico: Ênio Andrade

☻ River Plate: Comizzo, Gordillo, Jorge Higuain, Rivarola e Enrique; Hernán Diaz, Astrada e Zapata (Toresani); J. J. Borelli, Ramon Diaz e Medina Bello.

Técnico: Daniel Passarella.

♦ Arbitragem: Hernan Silva + Gastan Castro e Enrique Marin (Chile) com ótima atuação.

♦ Gols: Ademir aos 34’ + Mário Tilico aos 51’ e 75’.

♦ Público Pagante: 67.279 torcedores.

♦ Renda:  Cr$ 218.402.000,00 (US$ 286,541.60 - ticket medio = US$ 4.26 = R$ 16.61)

 

As homenagens especiais desta coluna vão para: Roberto Marques e Toni José (rádio Inconfidência de BH à época do torneio) que convidaram a mim (comentei o jogo da cabine ao lado do grande Roberto Drummond, um ilustre atleticano, escritor que nos deixou em 2002 aos 69 anos) e ao compadre Eliezer de Souza Mattos (assistiu como “cabo-man” de dentro do campo o jogo de Buenos Aires, sentado num banquinho ao lado do banco do Cruzeiro e ficou impressionado com as orientações do seu Ênio para o time).

 

Homenagens à velha guarda cruzeirense representada nas figuras de: Jorge Angrisano Santana, Elias “Rapozaço” Guimarães, Carlos H. C. Campos, Isaac Mirai, Jorge Schulman (o mais cruzeirense entre todos os torcedores do River Plate), Franklin Bronzo, Ivan Monteiro, Bellini Andrade, além dos grandes conselheiros cruzeirenses Raphael Peluso, Maurício Lima e Dr. Djalma José Fernandes (in memoriam).

 

E de Conceição do Mato Dentro-MG e Região: Mauro Alves Torres e Maria Luiza Quintão (Ferros), Antônio Lúcio Motta Drummond, Marcos José Rajão Costa, Xisto Guerra da Silva Neto, Rita Silveira, Jane Barros, José Geraldo Ribeiro, Fábio Martini Ribeiro, Ieda Generoso Tomazzi, Ramon R. A. Ferreira, Claudino Honório Mascarenhas e Tarcísio Lazzarini.  


“Cruzeiro, Cruzeiro Querido... Tão Combatido, Jamais Vencido”

 

 

Por: João Chiabi Duarte - @JoaoChiabDuarte

 

 

 

 

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