• João Chiabi Duarte

Campeonato Mineiro de 1977 – o nosso 24º título oficial

Mundo Azul,


A Página Heroica e Imortal de Abril de 2019 – O Campeonato Mineiro de 1977, foi disputado em paralelo às disputas da Copa Libertadores, porém, o Cruzeiro por ter sido campeão da competição de 1976, entrou somente na 2ª fase, quando passou por Inter e Portuguesa de Acarigua da Venezuela (que tinha entre seus astros o grande Jairzinho, que havia sido fundamental na conquista do nosso 1º título internacional (Copa Libertadores da América de 1976).


No primeiro turno o campeão foi o Atlético-MG que fez 20 pontos contra 19 do Cruzeiro em 11 partidas. No segundo turno, o campeão foi o Cruzeiro que fez 18 pontos contra 17 do Atlético-MG também em 11 partidas. A final seria disputada em série melhor de 3 partidas, sempre lembrando que em 1977 vitória valia 2 pontos e o empate 1 ponto.


O Cruzeiro disputou a final da Libertadores de 1977 contra o Boca Jrs, decisão que perdeu por 5 x 4 nos pênaltis (Gatti defendeu a última cobrança de Vanderlei), após um empate de 0 x 0 em Montevidéu (na Argentina deu Boca por 1 x 0... no Mineirão, Nelinho fez antológico gol de falta do meio da rua e devolvemos a vitória por escore mínimo). E no final de semana seguinte, já teve que iniciar a disputa das finais do Campeonato Mineiro de 1977. O cenário era complicado.


Na primeira partida, o Atlético-MG saiu na frente com um gol de Danival aos 28’ e poderia ter ampliado a vantagem se não fosse atuação sensacional de Raul Plasmann. Na semana que antecedeu à segunda partida aconteceu a célebre declaração de Toninho Cerezo de que enquanto ele, Reinaldo, Marcelo Pacote e Paulo Isidoro estivessem no “grorioso”, o Cruzeiro não iria ganhar nada em cima deles. E convidou o pessoal para ir ao campo e levar as faixas porque a taça ia ser levada para a Vila Olímpica.


Yustrich teve problemas pessoais e não dirigiu a segunda partida. No banco estava Procópio Cardozo Neto, que manteve Zezinho Figueroa na zaga central no posto de Moraes, como única modificação na escalação do time.


O Atlético fez 1 x 0 com Marinho num lance fortuito que a bola desviou na defesa e se ofereceu limpa para Marinho que colocou debaixo das pernas de Raul e saiu fazendo festa. Mas, o Cruzeiro tinha Nelinho e Eduardo iluminados em campo e em lances magistrais deles, o Cruzeiro empatou após cobrança de falta rápida de Nelinho para Eduardo e deste para Revétria, que só teve o trabalho de empurrar para as redes. Depois, Eduardo entortou o lateral atleticano e achou Revétria livre na pequena área para virar o marcador aos 55’ e no ataque seguinte aos 57’, Nelinho bateu o córner e Revétria fez 3 x 1 numa cabeçada sensacional e saiu para abraçar a Nelinho... Cruzeiro 3 x 1... Reinaldo ainda diminuiu aos 85’, mas, o Cruzeiro administrou bem o final do jogo.

Veio a terceira partida e no dia do jogo as 10 da manhã Felício Brandi e Procópio estiveram reunidos com o grupo de jogadores, fizeram a preleção e já iam saindo quando Nelinho os interrompeu e disse: “o seu Yustrich vem aí e vai fazer a preleção dele, qual preleção estará valendo?”


Felício lhe respondeu na lata e disse: “Vale a nossa. E o bicho gordo vai estar esperando por vocês, palavra de presidente.” Isto posto, vamos ao jogão.


Era o tempo dos duelos: Revétria x Márcio Paulada +++ Joãozinho x Alves +++ Nelinho x Marcelo Pacote +++ Zezinho Figueiroa x JRLima +++ Zé Carlos x Cerezo +++ Flamarion x Paulo Isidoro +++ Erivelto x Danival +++ Marinho da Betânia x Vanderlei +++ Eduardo x Dionísio... O futebol era muito melhor jogado que nos dias atuais e o futebol mineiro tinha bons jogadores.


A rivalidade entre os grandes da capital mineira era coisa de cinema, mas, os atleticanos continuavam com a história de comemorar títulos antes da hora, coisa que prevalece até os dias de hoje. Os times em sua maioria atuavam no 4-3-3 com os pontas, centroavante, com o famoso ponta-de-lança (ou camisa dez), laterais que apoiavam o ataque, mas, normalmente um de cada vez... O volante cuidava mais do setor defensivo e o armador fazia a parte de transição defesa e ataque.


Eu me lembro como se fosse hoje que fui cedo para o Mineirão junto com o meu amigo, primo e conterrâneo Cláudio Alberto Carvalho Carneiro (o famoso Bodão) e carregava comigo uma grande esperança de título. Uma das coisas que havia escutado foi a entrevista de Revétria após o segundo jogo de que não temia Ortiz e que já havia feito muitos gols nele quando o gringo atleticano jogava no Wanderers e ele no Nacional do Uruguai... já tinha feito 3 no jogo anterior e iria continuar frequentando as redes dele. Cumpre dizer que até levar gol do Revétria, o Ortiz estava invicto contra o Cruzeiro.


O Cruzeiro vinha se dando bem direto e reto contra eles, só que realmente a garotada do outro lado era boa de bola e vinha da conquista do Mineiro do ano anterior e boa campanha nos Brasileiros de 1976 e também de 1977.


A gente não tinha mais Piazza, Dirceu Lopes, Ronaldo Drummond, Jairzinho no elenco, porque Felício Brandi e Cármine Furletti caíram no canto da sereia do atleticano disfarçado Hélio Fraga, de que nosso time estava envelhecido e devia ser todo reformulado. Além de tudo, o Cruzeiro havia vendido Palhinha I ao Corinthians por soma recorde, fazendo a reposição de forma a apostar em jovens revelações como EliCarlos que veio do Coritiba a preço de ouro e até foi o artilheiro do Campeonato Mineiro de 1977. Mas, era nítido que o Cruzeiro sentia a falta destes jogadores acostumados a decidir. Mas, a espinha dorsal das conquistas estava lá. Raul, Nelinho, Eduardo e Joãozinho. Zé Carlos sentiu a contusão e cedeu seu lugar no time a Valdo, era mais um desfalque sério.


Os primeiros 30' foram bem jogados de parte a parte, mas, sem a abertura de contagem. O Cruzeiro mais compactado atrás e o time deles na empolgação, correndo demais e com a corda toda, mas, esbarrando na zaga e em Raul.


A coisa começou a esquentar após uma blitz atleticana com a bola saindo pela linha de fundo. E o que a gente temia aconteceu. Córner pela esquerda, Marcelo Oliveira cobra colocando efeito na bola e na disputa entre Vantuir Galdino e Darci Menezes pelo alto, na entrada da área, a bola vai para trás e sobra limpa para Reinaldo, que coloca de pé esquerdo sob o corpo de Raul, aos 34’ de jogo e o placar agora mostrava: Cruzeiro 0 x 1 Atlético-MG.


O lado alvinegro ouriçado no Mineirão, cantava a plenos pulmões que era campeão do gelo e orgulho de Minas. O lado azul retruca de imediato, mas, dentro de campo, os cacarejantes jogaram muito até o final do 1º tempo. Poderiam ter aumentado o placar se não fossem as boas atuações de Raul e da zaga.


Nosso time traçara um plano de jogo para jogar de contra-ataque e a coisa não ia funcionando bem, até aquele momento. Perdendo, o Cruzeiro teria que ir para o ataque e o treinador tira Valdo para colocar EliCarlos no time. A trinca de meio agora era formada por Flamarion de volante, Eduardo e Erivelto na armação. A configuração mudava de 4-3-3 para 4-3-1-2, com EliCarlos fazendo o nº 1 atrás de Joãozinho e Revétria. E cumpre dizer que EliCarlos mudou o ritmo do jogo e foi muito importante naquela tarde-noite.


Com um espírito de luta destacado, desde quando a bola rolou, o Cruzeiro voltou com uma volúpia incrível e passou a dominar o lado alvinegro, criando e perdendo chances de gol em sequência (2 bolas nas traves, além de pelo menos mais 3 chances claras nas quais a bola sobrou limpa para os jogadores celestes que concluíram para fora). A mudança tática desencaixou a marcação atleticana e o time celeste passou a dominar as ações, fazendo o time atleticano correr atrás da gente.


Eram 25’ da etapa final quando num córner cedido por Dionísio em lance com Eduardo, pelo lado direito, Nelinho levanta a bola bem alta e a mesma é devolvida por Joãozinho para dentro da área e Revétria empurra para as redes fazendo o placar do Mineirão mudar e a gente pulando de alegria atrás do gol da cidade (portão 3): Cruzeiro 1 x 1 Atlético-MG. O Mineirão inteiro ou em sua grande maioria ouvia a Rádio Itatiaia e a gargalhada do eterno Carlos César Franco Gomes, o Pinguim, ecoou por todo o estádio: rá, rá, rá, rá, rá... como é que está o coração azul agora hein?... Revétria, para o delírio da torcida cruzeirense.


Meu Deus do Céu que alegria indescritível. O time já dominava o adversário e agora partia ainda mais para cima deles. A gente gritava Cruzeiro, Cruzeiro, Cruzeiro... alucinados nas arquibancadas, mas, infelizmente o gol de desempate não saiu. Iríamos ter que jogar a prorrogação.


Um detalhe impressionante. O time cruzeirense era muito mais experiente e soube dosar o ritmo. Os ex-juvenis cacarejantes, haviam falado muito e estavam muito cansados, a maioria arriara as meias. Yustrich e Paulo Benigno (nosso inesquecível preparador físico) davam laranjas para os nossos jogadores, pouca água e o time voltou muito melhor para a prorrogação. O primeiro tempo foi arrastado e terminou sem gols. Aí Yustrich lançou mão do garoto Lívio (irmão gêmeo do lateral Luiz Cosme), um meia da base que vinha treinando muito bem e que tinha um retrospecto de vitórias na base em cima do outro lado.


O Cruzeiro ia atacar o segundo tempo da prorrogação para o gol da cidade, aquilo me dava ainda mais confiança na vitória. Após a troca de lado, o time celeste mostrava que tinha mais pernas que o lado emplumado, e Lívio se movimentava mais que Revétria, era melhor de bola.


E desta forma, o futebol dos nossos meias começou a aparecer. Eduardo voltara para a armação. Porém, Lívio, Eli Carlos e Joãozinho ficavam mais à frente, fazendo os volantes do Atlético recuarem, literalmente botamos as cocotas na roda (rs, rs, rs). Cerezo agora corria pra lá e pra cá, mas, era visível o cansaço dele. E se o filho do palhaço Moleza começara a arriar as meias, o que dizer do resto. A gente viu Yustrich mandando o Cruzeiro marcar pressão. E o time deles começou a errar mais os passes.


Lá atrás Zezinho Figueroa ganhava TODAS do Reinaldo. Eram 7'40” do segundo tempo da prorrogação, quando Nelinho recebe a bola e avança pela direita. Uns 5 metros antes da linha da grande área, cruza a bola para Joãozinho nas costas da defesa, Joãozinho testa a bola para o meio da área, onde aparece Lívio que de sem pulo, estufou a rede cacarejante, com um petardo de direita. A rede fez literalmente um papo e a torcida cruzeirense enlouqueceu no Mineirão. A gente comemorou demais, porque faltavam no máximo uns 8' para o fim do jogo e agora o time azul comandava o placar: Cruzeiro 2 x 1 Atlético-MG.


Na base do desespero os cacarejantes emplumados se lançaram ao ataque. O Cruzeiro bem plantado respondia sempre nas estocadas longas buscando sempre Joãozinho, Lívio ou Eduardo na inversão. Elicarlos voltava até o meio para ajudar e Erivelto (pela esquerda) jogando sempre com 3 armadores que mostravam pulmão impressionante, sempre chegando para compor as ações ofensivas e defensivas. Flamarion mandava prender e mandava soltar como volante. E veio o golpe de misericórdia.


Eram 14'10” do segundo tempo da prorrogação, quando Flamarion roubou a bola de Heleno e rolou para Nelinho, ainda no campo de defesa do Cruzeiro. Dali mesmo ele lança a bola na direção de Lívio que disputa no alto com Márcio Paulada e a bola passa por ambos e se oferece para Joãozinho, que domina, caminha mais uns 3 passos, protege a bola do marcador atleticano que chega na cobertura e de canhota vence Ortiz, fazendo um lindo gol. E saiu Joãozinho por trás do gol e veio comemorar com a turma da geral.

Alegria incomensurável no mundo azul... Cruzeiro campeão!

Confesso que nos segundos que restaram de jogo fiquei olhando Cerezo saindo de campo derrotado, macambúzio, esperei a volta olímpica e entrega da taça. Eu me lembro que voltamos de carona com um conterrâneo, seguindo o fluxo até o Barro Preto.


Aquele time deu na finalíssima uma lição de humildade, de maturidade, de comportamento unificado da cúpula até os jogadores. O time que chegara às finais envolto em uma série de intrigas, provara que continuava organizado em todas as suas áreas, com o comando firme de Don Felício Brandi, o nosso inesquecível estrategista, um homem que não perdia nenhum detalhe, nem uma vantagem. Mas, que sabia que iria ter que mandar o homão embora na primeira chance.


E do outro lado, o Atlético-MG, favorito disparado sairia do campo com cara de tacho, pois a imaturidade de seus ex-juvenis tomara conta da cabeça dos seus governantes e no final de tudo, o espetáculo que Dirceu Lopes dizia gostar de admirar: bandeiras queimadas, faixas de campeão destruídas, camisas com o código de barras sendo rasgadas e até mesmo pisoteadas, choro de revolta, bandeiras enroladas, pois, se descobrira que o time cheio de ótimos jogadores não era imbatível. Biblicamente falando mais uma vez a arrogância precedera à ruína.


Tomara 6 gols do Cruzeiro (3 de cabeça...todos de REIvétria) em 2 jogos, provando que entre rivais tradicionais favoritismo antecipado não vale nada.


Nelinho e Joãozinho, fizeram ambos um grande jogo, participando dos lances dos 3 gols da decisão. Joãozinho de novo decidiu contra os cacarejantes, como o fizera com aquela testada certeira em 15/12/74 (Cruzeiro TRI 2 x 1 Atlético-MG) ou com o passe perfeito para Palhinha em 22/02/76 (Cruzeiro TETRA 1 x 0 Atlético-MG). E agora, a gente poderia festejar a conquista noite adentro.


O Cruzeiro havia obtido vitória insofismável, incontestável. Havia jogado mais, tinha tido um esquema de jogo mais eficaz. Anulara as principais forças do adversário, com muita raça, muita determinação.

E Cerezo que havia menosprezado o lado celeste, agora buscava encontrar justificativas para a sua fala infeliz, inconsolável, não conseguia entender como sua defesa tão forte havia levado 3 gols de cabeça do Revétria em 2 jogos.


Gols da partida - Cruzeiro 3x1 Atlético


☻ SÚMULA DO JOGO : Cruzeiro 3 x 1 Atlético-MG


♦ Motivo: Finalíssima do Mineiro de 1977 (3º jogo)

♦ Local, Hora, Data: Mineirão (Belo Horizonte), domingo, 09/10/1977, 16:00 h

☻ Cruzeiro: Raul, Nelinho, Zezinho Figueiroa, Darci Menezes e Vanderlei; Flamarion, Erivelto e Valdo (Eli Carlos); Eduardo, Revétria (Lívio) e Joãozinho.

DT: Dorival Knieppel (Yustrich) e Procópio Cardozo Neto

☻ Atlético-MG: Ortiz, Alves, Márcio Paulada, Vantuir Galdino e Dionísio; Toninho Cerezo, Danival (Heleno) e Paulo Isidoro (Marcinho); Marinho, Reinaldo e Marcelo Pacote. DT: Barbatana

♦ Gols: Reinaldo 35', Revetria 70', Lívio 97', Joãozinho 104'

♦Arbitragem: Márcio de Campos Sales (FPF) auxiliado por Raimundo Divino e Paulo Sanchez(FMF).

♦Público Pagante: 122.534 pagantes (maior público do clássico)

♦ Renda : Cr$ 4.195.650,00


☺ E as homenagens especiais desta coluna hoje vão para: Os grandes astros desta decisão em campo Raul, Nelinho, Eduardo, Revétria e Joãozinho. Aos maestros da virada fora de campo representados nas figuras de Felício Brandi e Procópio Cardozo Neto, que souberam como poucos montar a estratégia para vencer o time atleticano. E sem medo de ser feliz rendo homenagens a grandes cruzeirenses como Bellini Andrade, Jorge Schulman, PC Almeida, Benny Gesmundo, Elias Guimarães, Marlon Marcelo Fonseca, Cláudio Guimarães, Eder Lana Oliveira, Emy Silva, Sandrinha Fernandes, Mariza Lobato e Laura Estrela.


☺ E de Conceição do Mato Dentro-MG: Prof. Geraldo Alves Machado, Evandro Vidigal, João Roberto e Carlos Maurício Lazarinni Ávila, Eliezer de Souza Mattos, Cláudio Alberto Carvalho Carneiro, além de Bento Luiz Silva, Cláudia Magalhães Guerra, Zanone Vilela Costa, Carlos Magno Lages Oliveira e Fábio Martini Ribeiro (todos aniversariantes do mês de abril).


E para comandar este timaço convoco o grande cruzeirense Marcelo Sebastião Brasileiro, cracaço de bola, filho de Dona Delilah (a dona do rádio pé quente onde a gente escutava os jogos do Cruzeiro) e de Mr. Sebastião Brasileiro, hoje rei de Vespasiano.


“Cruzeiro, Cruzeiro Querido...Tão Combatido, Jamais Vencido”


Por: João Chiabi Duarte - @JoaoChiabDuarte



Imagem: Arquivo/EM/D.APress





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