• João Chiabi Duarte

Emoção Inigualável: Copa do Brasil de 2000 – Nosso 42º Título

Mundo Azul,


Cruzeiro 2x1 São Paulo: até de profeta eu fui chamado - Um dos jogos que jamais sairão da minha memória de torcedor cruzeirense, um dos melhores presentes de aniversário que ganhei na minha vida. Aquele jogo marcou sem sombra de dúvidas a mais emocionante final das Copas do Brasil da história deste torneio que começou em 1989 e que tem o Cruzeiro como o recordista com 6 conquistas, seguido do Grêmio com 5 títulos.

Cruzeiro campeão da Copa do Brasil de 2000. Foto:Arquivo/Hoje em Di

O Cruzeiro naquela competição havia eliminado sequencialmente o Gama (1x1 e 4x1), Paraná Clube (2x0 fora), Caxias (3x1 e 6x1), Atlético-PR (2x1 e 2x2), Botafogo (3x2 e 0x0), Santos (2x0 e 2x2) e havia empatado com o São Paulo no Morumbi em 0x0 no jogo de ida das finais.


O jogo foi muito amarrado no primeiro tempo, com o Cruzeiro atacando para o gol da cidade (coisa que a maior parte da torcida não gosta, inclusive este que vos relata esta grande conquista), criando algumas chances de gols, mas, esbarrando na categoria do Rogério Ceni.


O São Paulo seria campeão com um empate com gols e preferiu esperar o tempo passar. Geovanni e Oséias brigavam muito, mas, efetivamente, foi uma primeira parte com o jogo se desenvolvendo preferencialmente de intermediária a intermediária.


O meio-campo cruzeirense com Marcos Paulo, Donizete Oliveira, Ricardinho e Jackson marcava muito, mas, os atacantes ficavam muito isolados. Geovanni tinha então que carregar muito a bola, prejudicando o seu jogo. Do outro lado, o São Paulo tinha mais habilidade com Alexandre, Maldonado, Raí e Marcelinho Paraíba no meio e com Edú e França na frente.


Os melhores lances foram sem dúvida do Cruzeiro, mas, não foi um domínio avassalador, era um jogo estudado. Eu me lembro de uma boa jogada iniciada por Sorín pela esquerda. Ele combinou com Geovanni que quase caindo achou Jackson na entrada da área. O nosso camisa DEZ rola para a bomba de Ricardinho que passa perto da trave esquerda de Rogério Ceni.


Chance Perdida Incrível – Geovanni recebe na ponta direita e passa a bola para o lateral Rodrigo, que tenta por elevação achar a Jackson na penetração, Rogério Pinheiro corta de cabeça e a bola se oferece a Oséias que de cabeça deixa Jackson cara a cara com Rogério Ceni, que opera um milagre, a bola desvia no corpo dele e vai na trave, volta e no rebote Ricardinho debaixo das traves faz o mais difícil, perde o gol feito.


Todo mundo olhando uns para os outros. Eu havia chegado ao estádio em cima da hora vindo de Vitória com o meu amigo torcedor do Fluminense, Sebastião Loureiro Filho. Descemos na Pampulha, botamos as malas no guarda volumes e fomos para o estádio, entramos nas cadeiras cativas, porque eu tinha uma e um colega de empresa passou a dele para o Sebastião Loureiro.


Eu me virei para o Sebastião e disse que havia sonhado que o Cruzeiro ganharia de virada, por 2x1 com gols do Geovanni e do Fábio Jr. que nem em campo estava e mais que havia mandado um e-mail para o Milton Neves (rs, rs, rs), que era de Muzambinho e comandava a melhor mesa redonda da época na BAND, o programa SUPERTÉCNICO. Acabou o primeiro tempo e todo mundo estava nervoso no Mineirão, mas, eu surpreendentemente estava tranquilo. A torcida cantava, mas, não havia conexão da torcida com o time, até então.


As chegadas do São Paulo estavam tendo mais qualidade, embora na primeira parte nenhuma chance digna de registro houvesse sido criada pelo time comandado por Levir Culpi.


Mas, veio o segundo tempo e a tônica de monotonia foi quebrada logo no começo com um bom chute de França da entrada da área que André defendeu sem dificuldade.


Na sequência Marcos Paulo rouba uma bola na defesa e toca a Jackson, que corre uns 50 m com a bola, tabela com o mesmo Marcos Paulo que acompanhara o lance e recebe na entrada da área. O chute sai forte no canto esquerdo de Rogério Ceni que espalma. A bola ainda sobra para Oséias que levanta na área e a defesa do São Paulo alivia. Outra boa chance perdida.


Eram 21’ do 2º tempo, quando ocorreu um lance de falta a favor do São Paulo, na lateral do campo entre o túnel cruzeirense e a grande área. Marcelinho Paraíba cobra direto para o gol. André Doring escorrega e vê a bola morrer atrás de si, decretando Cruzeiro 0x1 São Paulo. Nesta hora vi muita gente desistindo, mas, eu mesmo estava tranquilo.


Agora, a situação cruzeirense era verdadeiramente desesperadora, pois para ser campeão tinha que fazer 2 gols. O nosso técnico então retira, os dois laterais e coloca em campo Fábio Jr. no lugar de Rodrigo e também o meia Viveros no lugar de Sorin. Tirou também Jackson que se cansara de tanto correr atrás do Maldonado e Marcelinho Paraíba, para a entrada de Muller.


A torcida que fizera festa bonita até ali, principalmente a Máfia Azul, deu uma calada. Só se ouvia resmungos no Mineirão, aquele zum-zum-zum nervoso, característico de uma pequena parte da torcida do Cruzeiro, que reclama até de aumento de salário. Foi quando um grupinho pequeno na área das cadeiras cativas começou a gritar e a fazer barulho, cantavam o nome do clube e não o da nossa maior facção.


O São Paulo teve 2 boas chances de matar o jogo com contra-ataques velozes feitos por Alexandre e Marcelinho Paraíba pelo lado esquerdo do ataque do São Paulo, mas, para nossa alegria, ambos optaram pelo chute, ao invés de dar o passe para quem acompanhava a jogada pelo comando de ataque e ambas as bolas bateram na rede pelo lado de fora.


Passava dos 34’ quando Fábio Jr. recebeu uma bola de Muller no lado direito da grande área e virou de pé direito, soltou a bomba, que venceu Rogério Ceni e foi morrer na lateral da rede do lado direito do gol do São Paulo, anotando Cruzeiro 1x1 São Paulo no placar. Fábio Jr. mais uma vez mostrava que era pé quente com a nossa camisa em finais, jogos decisivos e principalmente contra o São Paulo.


O gol de empate levantou a torcida que começou a apoiar continuamente. Já não eram grupinhos, mas, uma torcida inteira, todos a cantar o hino do Cruzeiro e girando as camisas por sobre as cabeças. Sebastião Loureiro do meu lado falou assim, que coisa linda é o jeito desta torcida cruzeirense apoiar o time e entrou na onda.


Se Marco Aurélio optara por ir com tudo o que podia e devia em busca da vitória, Levir Culpi, então treinador do São Paulo, optara por reforçar o sistema defensivo fazendo entrar Axel no lugar de Alexandre, Fabiano no lugar de Edú (à época um jovem que despontava no São Paulo...hoje brilha na Espanha) e Carlos Miguel no lugar de França.


Desta feita, a ousadia incomum de Marco Aurélio foi premiada, pois, eram 44’ do 2º tempo quando Axel troca bolas com Rogério Pinheiro no meio-campo, gastando o tempo, bem ao gosto do seu treinador. Só que do nada, Geovanni surge como um raio e rouba a bola de Axel e parte em altíssima velocidade em direção à área. Sem outro recurso Rogério Pinheiro “aterra” Geovanni a um palmo da entrada da área. E toma o cartão vermelho, pois era o último homem. Catimba daqui e dali... E o tempo correndo.


A barreira sempre a menos de 8,0 metros da bola. Muller vai até o garoto Geovanni, já àquela altura famoso por seu chute forte e certeiro e lhe manda bater a bola direto para o gol ...(Na verdade lhe diz para bater rasteiro, porque sabia da instrução dada às barreiras no São Paulo de pular nas cobranças). Donizete Oliveira se encosta na barreira deles e no ato da cobrança, dá um leve empurrão na barreira que pula desorganizada. A bola do Geovanni, sai forte, rente ao chão, ainda desvia num jogador da barreira, bate Rogério Ceni e entra no gol deles. Loucura total marca os 2x1 para o Cruzeiro com gol antológico do garoto de Acaiaca. E saiu o garoto correndo em direção à torcida, numa explosão de alegria. Abraçado por todo o time do Cruzeiro. E a gente escutava a gargalhada do Carlos César Pinguim a ecoar no Mineirão... Rá, rá, rá, rá...rá, rá, rá... Como é que estão o Geovanni agora hein, hein, hein... rindo à toa, para o delírio da torcida cruzeirense.

Geovanni marca o segundo gol do Cruzeiro na partida, o gol do título.


Enquanto todo mundo pulava, o São Paulo desceu pela direita e a bola cruzou toda a área, Cris disputou com Carlos Miguel e perdeu, o meia cruzou certinho na cabeça de Marcelinho Paraíba, de dentro da pequena área. Ele cabeceou forte, mas, André com muita coragem, se redimiu da falha, fez uma excepcional defesa e salvou o gol de empate deles que lhes daria o título, Clebão completou o serviço e isolou a bola para longe.


E a Máfia cantou assim para o técnico adversário “Vice outra vez”. Melodia igual à que a Raça Rubro-negra entoara para a turma do bacalhau no dia anterior no Maracanã... A situação requeria mudanças e premiou a ousadia do Marco Aurélio, que logo depois da conquista deixou o Cruzeiro sendo substituído pelo Felipão, que levaria o Cruzeiro às semifinais do Brasileiro daquele ano (Copa João Havelange), perdendo a classificação em casa para o Vasco (derrota por 3x1), quando poderia empatar até por 2x2.


A festa foi de arromba em BH, varou a madrugada e eu ainda tive o prazer de ver o Milton Neves lendo um e-mail meu que eu havia enviado na sexta-feira anterior (dia do meu aniversário) falando que o Cruzeiro iria ganhar de 2 x 1 com gols do Fábio Jr. e Geovanni, que seria aquele o meu presente de aniversário...E me chamou de PROFETA. Nunca vi um “capeletti” tão gostoso quanto aquele que traçamos na casa de massas que o Eli de Oliveira Mattos havia inaugurado na Rua da Bahia, no mesmo lugar onde por anos os irmãos Franelli tiveram durante anos seguidos a sua loja de tecidos.

Com a taça mais sofrida da história cruzeirense nas mãos, os jogadores fazem a festa no gramado do Mineirão pelo tricampeonato da Copa do Brasil. Foto: Arquivo/Hoje em Dia

Que domingo inesquecível aquele... O Cruzeiro acabara se sagrando TRI-CAMPEÃO INVICTO da COPA DO BRASIL. A final tinha sido realizada num domingo e o grande espetáculo fora presenciado pelo Brasil inteiro. Cruzeiro... Um time copeiro.


☻ SÙMULA DA PARTIDA: CRUZEIRO 2x1 SÃO PAULO


♦ Motivo: 2ª partida da Final da Copa do Brasil de 2000

♦ Local, Data e Horário: Mineirão, Belo Horizonte, Domingo, 09/07/2000, 16:00 h.

☺ Cruzeiro: André, Rodrigo (Muller a 66’), Cris, Cléber e Sorin (Viveros a 70’); Marcos Paulo, Donizete Oliveira, Ricardinho e Jackson (Fábio Jr. a 67’); Geovanni e Oséias.

DT: Marco Aurélio Moreira.

☻ São Paulo: Rogério Ceni, Belletti, Edmílson, Rogério Pinheiro e Fábio Aurélio; Alexandre (Axel), Maldonado, Raí e Marcelinho Paraíba; Edú (Fabiano) e França (Carlos Miguel).

DT: Levir Culpi.

♦ Gols: Marcelinho Paraíba aos 66’, Fábio Jr. aos 79’ e Geovanni aos 89’.

♦ Arbitragem: Carlos Eugênio Simon + José Carlos Oliveira e Marcos Ibañez (todos do RS).

♦ Cartões Amarelos: Sorin (19’), Clebão (34’), Geovanni (69’), Oséias (72’) pelo lado cruzeirense e Raí (14’), Maldonado (16’), Belletti (53’) pelo lado tricolor.

♦ Cartão Vermelho: Rogério Pinheiro a 87’

♦ Público Pagante: 85.851 pessoas.

♦ Renda: R$ 817.816,00 (ticket médio = R$ 9.53)


Veja o jogo na íntegra:


As homenagens desta Página Heroica Imortal vão para: Alex Kim, Tiago Albernaz, Walter Seixas Neto, Roberto Lázaro Palmeira, José Eustáquio Dourado, Cláudio Arreguy, Wellington Campos, Rayane Azevedo, Léo Valadares, Júlio Dídimo e Davi Aguiar. E para comandar este timaço convoco o meu irmão Ademar de Carvalho Barbosa Filho, que sempre esteve no Mineirão junto comigo nos jogos do Cruzeiro.


E de Conceição do Mato Dentro e Região: Cléber Bingão (Morro do Pilar), Douglas e Alysson Duarte Andrade (São Sebastião do Rio Preto), Sebastião Costa Filho, Renílson Marcos de Lima Guimarães, Raimundo “Santíssimo” Freire, Dácio “Benfica” Costa, Sávio Luiz Ferreira de Oliveira, Maria Amélia “Zizi” Quintão e Nilza Quintão (Ferros) e Helder Ferreira Carneiro. E para comandar este timaço convoco ao Otacílio Costa Neto, que aos 5 anos estava lá, um dos maiores cruzeirenses que eu conheço.


“Cruzeiro, Cruzeiro Querido... Tão Combatido, Jamais Vencido”


Por: João Chiabi Duarte - @JoaoChiabDuarte





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