• Ezequiel Silva

O estádio do Cruzeiro

Na última semana, a torcida animou-se com a ideia apresentada pelo prefeito de Betim, Vittorio Medioli, que revelou a iniciativa para que o Cruzeiro entre em uma parceria com investidores e tenha uma arena multiuso própria, a ser construída nessa importante cidade da região metropolitana.


Nessa onda, tem quem prefira o Mineirão - de saudosas memórias - e sugira uma rediscussão dos contratos com a Minas Arena visando melhores condições para o Cruzeiro. Outros, são favoráveis ao clube zarpar de vez com o seu mando de campo para as terras onde nasceu o campeoníssimo Sada Cruzeiro, em busca de autonomia.


Uma boa e velha discussão, bem ao estilo de um boteco cruzeirense, e que ainda vai render muito pano pra manga. Em pensar que há um ano estávamos discutindo a permanência do técnico Felipe Conceição… é, a coisa melhorou muito desde então. Preferências à parte, cada proposta tem seus fundamentos. No entanto, esse não é o tema aqui no texto de hoje.


Você sabia que o Cruzeiro já teve um estádio próprio?


No seu primeiro ano de existência, o Palestra Itália não possuía um campo próprio para treinar, e utilizava o Prado Mineiro, um estádio e hipódromo municipal localizado à Rua dos Pampas, no bairro Prado, onde atualmente é a Academia da Polícia Militar. O Prado Mineiro era até então o principal campo da cidade; foi lá que o Palestra atuou pela primeira vez em sua história, diante do Combinado Palmeiras/Villa Nova-MG (vitória por 2x0), e onde disputou os primeiros clássicos contra Atlético-MG (vitória por 3x0) e América-MG (derrota por 0x2).


O Estádio do Palestra foi inaugurado em 1923, apenas dois anos após a fundação do clube, que ocorreu em 2 de janeiro de 1921. O campo palestrino ocupava exatamente o mesmo quarteirão onde hoje está o Parque Esportivo do Cruzeiro, formado pelas ruas Ouro Preto, Guajajaras e Araguari, e pela Avenida Paraopeba (atual Augusto de Lima), bem no coração do Barro Preto.


O Palestra comprou o terreno no Barro Preto em 1922, junto à prefeitura da cidade, e começou a idealizar o objetivo proposto desde as primeiras reuniões de sua fundação, que era ter um campo próprio. O “estadinho” foi inaugurado oficialmente em 23 de setembro de 1923, em comemoração ao Dia Nacional da Itália. O adversário foi o Flamengo-RJ, naquele que ficou marcado como o primeiro jogo interestadual da história do Palestra. Empate em 3x3, diante de quatro mil pessoas.


As arquibancadas de madeira do Barro Preto viram o Palestra vencer os seus primeiros campeonatos: o citadino de 1926, o tricampeonato de Belo Horizonte em 1928-29-30, e o título estadual de 1940. O primeiro tri estadual do rebatizado Cruzeiro também foi escrito ali, em 1943-44-45. O polêmico título mineiro de 1956 também teve passagens no Barro Preto, assim como o tricampeonato de 1959-60-61.


O campo do Barro Preto viu nascer e foi a casa dos primeiros craques e ídolos palestrinos/cruzeirenses, como Ninão, Nininho, Niginho, Bengala, Abelardo, Nogueirinha, Caieirinha, Geraldo II, entre tantos outros. No estadinho, o Palestra Itália venceu o time do Alves Nogueira (Sabará) por 14x0, em 1928, naquela que é a maior goleada da história do Cruzeiro. Nesse jogo, Ninão anotou 10 gols e tornou-se o jogador a marcar mais vezes em uma mesma partida vestindo a camisa do Cruzeiro.


No ano de 1945, o estádio passou por uma modernização, quando suas arquibancadas de madeira foram substituídas por estruturas de concreto. Em “De Palestra a Cruzeiro”, o jornalista e historiador Plínio Barreto descreve assim a reforma: “Os jogadores tiveram participação destacada na construção do novo estádio. Bibi e Caieirinha, dois craques dentro de campo, eram hábeis na marcenaria. Geraldo II levantava paredes, Hemetério cuidava do gramado. Com a boa vontade de todos, em apenas quatro meses, foi possível derrubar as velhas arquibancadas de madeira do estadinho do Barro Preto e levantar as novas dependências de cimento e uma praça de esportes.”


Após a reforma, o estadinho recebeu o nome do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek (JK), futuro Governador de Minas e Presidente do Brasil, e que era “fervoroso torcedor” do Cruzeiro, segundo suas próprias palavras. O jogo inaugural da reforma foi contra o Botafogo-RJ, em 1° de julho de 1945, e terminou empatado em 1x1; gols de Niginho (Cruzeiro) e Heleno de Freitas (Botafogo-RJ). A partida contou com a presença de JK, que fez longo discurso exaltando o feito cruzeirense.

Partida de reinauguração do estádio do Barro Preto. Cruzeiro 1x1 Botafogo. Arquivo/EM/D.A Press


Meses depois, em 3 de janeiro de 1946, o Cruzeiro realizou o primeiro jogo internacional de sua história, e foi no Barro Preto. Em comemoração aos 25 anos de fundação do clube foi idealizado um amistoso contra o Libertad (Paraguai). A partida terminou empatada em 2x2, com gols de Ismael e Braguinha para o Cruzeiro, e Esquivel (2) para o Libertad. A curiosidade é que esse é o único confronto registrado na história entre essas duas tradicionais equipes sul-americanas.


Em 1950, o Brasil recebeu a sua primeira Copa do Mundo da FIFA, e Belo Horizonte foi uma das sedes do torneio. Para tanto, a cidade construiu e inaugurou o Independência. Crescia cada vez mais o público nos estádios de BH e, aos poucos, o estádio tornou-se a principal praça do futebol na capital, posto esse que ocupou até 1965 com a inauguração do Mineirão, na Pampulha, que comportava uma plateia ainda maior.


Até o ano de 1965 o Estádio JK recebeu jogos do Cruzeiro - a última partida registrada no local foi um amistoso diante do Democrata de Sete Lagoas, em 14 de fevereiro de 1965, e o Cruzeiro venceu por 4x0. A partir de então, o local funcionou como centro de treinamentos do time profissional até 1973, ano em que foi inaugurada a Toca da Raposa I, também na região da Pampulha.


Além dos primeiros ídolos palestrinos dos anos 1920-30-40, o gramado do JK assistiu ao surgimento da dupla Tostão e Dirceu Lopes nos anos 1960. O embrião do time campeão da Taça Brasil de 1966 foi gerado naquele campo pelo técnico Airton Moreira. Os treinos da equipe no Barro Preto costumavam deixar as arquibancadas e muros apinhados de gente, que queriam ver craques do naipe de Wilson Piazza, Zé Carlos, Procópio e Natal desfilando sua categoria em campo.


Nos anos 1970 e 1980, com o Cruzeiro plenamente instalado no Mineirão, treinando na Toca I e esporadicamente atuando no Independência, o JK continuou sendo utilizado pelas categorias de base e para o lazer. Uma das atividades mais marcantes praticada ali era o encontro semanal de jogadores veteranos do clube, que se reuniam aos sábados para uma tradicional e refinada “pelada”, o Raposão.

Estádio JK em 1973. Arquivo/EM/D.A Press


O estádio foi totalmente desativado em 1986, para dar origem ao complexo de lazer do Parque Esportivo, surgindo assim uma nova fonte de receita para o clube e findando-se uma história de seis décadas da casa do futebol azul no Barro Preto. O quarteirão do JK comporta hoje o local de treinamento da equipe masculina de vôlei do Sada Cruzeiro, um ginásio poliesportivo, salão social para reuniões e assembleias, piscinas, quadras, churrasqueiras e outros adereços de lazer, além de uma unidade da franquia Cruzeiro Official Store. O muro externo grafitado com figuras históricas do Palestra/Cruzeiro protege esse local tão importante para nós, cruzeirenses.

Parque Esportivo do Barro Preto. Foto: Cruzeiro Esporte Clube



Aqui estão alguns números do Palestra/Cruzeiro no Estádio JK/Barro Preto:


Total de 478 jogos: 295 vitórias, 96 empates e 97 derrotas; 1370 gols a favor e 718 contra.


Jogo inaugural: Palestra Itália 3x3 Flamengo-RJ, em 23 de setembro de 1923. Gols: Ninão (2) e Heitor para o Palestra; Benevenuto, Agenor e Mário para o Flamengo-RJ. Com o empate, o visitante levou a Taça XX de Settembre, em alusão ao Dia Nacional da Itália (comemorado em 20 de setembro).


Times que mais enfrentou no Barro Preto:


América-MG: 70 jogos, 36 vitórias, 18 empates e 16 derrotas

Atlético-MG: 61 jogos, 24 vitórias, 13 empates e 24 derrotas

Villa Nova-MG: 50 jogos, 28 vitórias, 10 empates e 12 derrotas

Sete de Setembro (bairro Floresta): 47 jogos, 34 vitórias, 8 empates e 5 derrotas

Siderúrgica (Sabará): 41 jogos, 21 vitórias, 9 empates e 11 derrotas


Último jogo: Cruzeiro 4x0 Democrata (Sete Lagoas), em 14 de fevereiro de 1965. Gols: Tostão, Fescina, Picinin e Dalmar.


Fontes: Cruzeiropedia, livro “De Palestra a Cruzeiro'', blog Campos Invisíveis.





Um abraço aos amigos do DebateZeiros!


Por: Ezequiel Silva - @ezequielssilva89

Edição: Renata Batista - @Re_Battista