• Ezequiel Silva

¡Felicitaciones, Juampi!

As histórias das instituições são feitas por pessoas, e a trajetória do Palestra/Cruzeiro não poderia ser diferente; um clube nascido do povo, e para o povo, tem em suas páginas heróicas grandes ídolos que ultrapassaram gerações, que transbordaram para dentro do campo o amor da arquibancada e que se fizeram merecedores de todo nosso reconhecimento por suas contribuições.


É assim com nomes como Niginho e Dirceu Lopes, por exemplo. O palestrino, artilheiro nato e maior ídolo do clube nos tempos pré-Mineirão, declarou certa vez que sua família, os Fantoni, eram “uma extensão do Palestra'', tamanha a ligação dos mesmos com o clube. Entre gols e títulos, o “Menino Metralha” foi um autêntico torcedor dentro das quatro linhas.


O Príncipe Dirceu Lopes nunca arredou o pé das montanhas que o mantinham próximo ao Cruzeiro. Foi um privilegiado - como ele mesmo diz - que pôde defender seu clube do coração por mais de uma década, tornar-se um dos seus maiores artilheiros, ser campeão várias vezes e alçar merecidamente o posto de ídolo eterno.


Juan Pablo Sorín, por sua vez, nasceu longe de Minas Gerais, lá pelas bandas de Buenos Aires, em uma Argentina sombria, aos 5 de maio de 1976. Diferentemente de Niginho e Dirceu, Sorín não era torcedor celeste quando criança. No entanto, munido de muita entrega e de uma raça absurda, conseguiu sair de sua jornada nos gramados e conquistar uma identificação jamais vista no futebol mineiro, transformando-se em fervoroso torcedor.

Arte: William Silva


Revelado pelo Argentinos Juniors, e com passagem marcante pelo River Plate, Juampi vestiu a camisa azul estrelada pela primeira vez aos 23 anos de idade, na (até então) maior investida financeira da história do Cruzeiro, em janeiro de 2000.


Uma trajetória que começou derrapante, com atuações abaixo do esperado, ainda naquele período de adaptação de um jovem atleta estrangeiro ao futebol brasileiro, e com a exigente torcida cobrando uma resposta por tanto dinheiro investido em um mero lateral-esquerdo cabeludo. Mas, após algum tempo, Sorín se mostrou um jogador diferenciado dentro de campo.


Dono de uma certa onipresença, atuava praticamente sem posição definida, ora aparecendo na defesa para tirar bolas improváveis, ora aprontando as suas peripécias no ataque, e desajustando os sistemas adversários como um elemento “surpresa”.


A primeira (e mais marcante) passagem do hermano durou até 2002 e rendeu três títulos ao Cruzeiro: a Copa do Brasil de 2000 (aquela!), e as Copas Sul-Minas de 2001 e 2002. Essa última, com sabor tão especial e roteiro digno dos melhores já lançados em Hollywood, que merece até um recorte.


Negociado com a Lazio-ITA, Sorín encerraria sua passagem pelo Cruzeiro exatamente na final daquela Sul-Minas, diante do Atlético-PR, no Mineirão lotado. Como em uma história fictícia, costurada à perfeição nos mínimos detalhes, Juampi marcou o gol da vitória, e do título, após quase ter abandonado a partida minutos antes, devido um choque de cabeças com um adversário, o que lhe rendeu um corte no supercílio, seis pontos e um “belo” curativo na cabeça.


Era um domingo de Dia das Mães, e Sorín, que carregou a faixa de capitão no jogo e ergueu a taça, ainda foi surpreendido com a presença da sua mamá no gramado do Mineirão. Um encerramento perfeito de uma epopeia em azul e branco em uma mistura belíssima entre Argentina e Minas Gerais e da mais pura latinidade.


Já na Itália, Sorín, um amante das letras, declarou todo seu amor pela camisa mais linda do mundo em uma carta que, até hoje, emociona cada cruzeirense que o viu jogar, e viveu os bons tempos do hermano pelos lados da Toca da Raposa.


Sorín ainda retornou ao Cruzeiro outras duas vezes (em 2004 e 2009), castigado pelas contusões e sem o mesmo brilho da primeira passagem. Fatores esses, porém, insuficientes para apagar a maravilhosa lembrança dos três primeiros anos em que esteve com o manto azul estrelado. O laço entre Juampi e a Nação Azul já estava firmado pela eternidade.


Apesar de precoce, sua despedida foi digna de um grande ídolo - tinha apenas 33 anos quando da aposentadoria. Sorín fez questão de encerrar o amistoso de despedida diante do Argentinos Juniors, seu primeiro clube, vestindo a camisa estrelada diante de um Mineirão que o ovacionou. Como legado deixou, além dos 18 gols em 125 jogos disputados, a sua fidelidade ao Cruzeiro, o respeito pela torcida e uma ligação eterna e de sentimentos mútuos.


Essas e outras passagens - como o episódio da “Barba Azul” após o título da Copa do Brasil de 2017, ou a vez em que subiu à arquibancada e assistiu (pulando e cantando) a um jogo do Cruzeiro no meio da torcida - fazem com que Juan Pablo Sorín esteja muito bem colocado na galeria dos maiores ídolos do Cruzeiro Esporte Clube, e mereça todas as honrarias, homenagens e lembranças por parte do povo azul.


Honremos os nossos ídolos. ¡Feliz cumpleaños, Sorín!


Um abraço aos amigos do DebateZeiros!



Por: Ezequiel Silva - @ezequielssilva89

Edição: Renata Batista - @Re_Battista