• João Chiabi Duarte

SUPERCOPA 1992: Nosso 30º Título Oficial - Uma conquista empolgante

Uma coisa interessante em todas as conquistas marcantes da história mais recente do Cruzeiro é a presença de um armador de pé direito ou que saiba marcar e chegar à frente com desenvoltura, como o nosso DEZ DE OUROS Dirceu Lopes, mestre Zé Carlos, Eduardo Rabo de Vaca, Douglas, Ricardinho Mosquitinho Azul, Valdo, Maldonado e mais recentemente Robinho.


Nesta página imortal quero retratar um dos maiores camisas 8 que atuaram pelo Cruzeiro e que foi muito importante na conquista deste BI-CAMPEONATO Da Supercopa 92: Marco Antônio Boiadeiro. Um armador humilde, gente boa, atencioso com os torcedores, um "gentleman" no trato com todos os jornalistas.

Marco Antônio Ribeiro, o Boiadeiro

Armador na verdadeira acepção da palavra é aquele que pensa o jogo, defende, marca, lança, dá passes decisivos e ainda encontra fôlego para finalizar a gol com categoria. Boiadeiro reunia todos estes predicados.


Este jogo contra o Racing Club de Avellaneda ficará marcado para sempre na memória de cada um daqueles mais de 80 mil presentes ao Mineirão, numa festa inesquecível da nossa torcida, que aliás registrou ali a maior média de presença em uma competição no Brasil.


As campanhas até chegar às Finais:


RACING CLUB:

Oitavas de Final – Independiente – 2x1 (C) e 0 x 0 (F)

Quartas de Final – Nacional do Uruguai – 2 WO’s – Jogadores uruguaios entraram em greve

SEMIFINAL – Flamengo – 3x3 (F) e 1x0 (C) – Flamengo jogou no Pacaembu


CRUZEIRO:

Oitavas de Finail – Atlético Nacional (Colômbia) – 1x1 (F) e 8 x 0 (C)

Quartas de Final – River Plate da Argentina – 2x0 (C) e 0x2 (F) – Pênaltis: Cruzeiro 5x4

SEMIFINAL – Olímpia do Paraguai –1x0 (F) e 2x2 (C)


Um pouco de história - Cruzeiro e Racing fariam novamente a final da Supercopa, uma vez que, haviam decidido a primeira edição do torneio em 1988 e estavam literalmente atravessados na nossa garganta. Naquelas finais os argentinos tiveram a vitória por 2 a 1 em Avellaneda, no primeiro jogo das finais e deram a volta olímpica, no Mineirão, na volta com um empate em 1 a 1.


Antes da bola rolar todos no Cruzeiro acreditavam que só mesmo uma vitória com margem elevada de gols daria ao time a tranquilidade necessária no jogo da volta, o time celeste teria que entrar com sangue nos olhos para tentar despachar o Racing já na partida de ida. O treinador Jair Pereira preparou bem o espírito do grupo de jogadores e avisava "sem dúvida que a decisão é aqui, onde teremos que fazer muitos gols".


A razão era simples. Ninguém no elenco duvidava que o mesmo clima hostil que enfrentaram em Buenos Aires, nas quartas de final, contra o River, iria se repetir, em Avellaneda, contra o Racing, na final. "Todos os times argentinos procuram fazer de cada partida uma guerra. Temos que fazer o resultado aqui para jogar mais tranquilos lá", analisava o atacante Edson, que atuara nas finais de 1988 e estava fora agora porque rompera o tendão de Aquiles.


Pelo lado do Racing, o experiente Ruben Páz (ex-Inter de Porto Alegre), era o único jogador do time supercampeão de 1988, que ainda permanecia na "academia celeste argentina” e previa um jogo aberto, sem violência e disse como sua equipe iria se comportar no Mineirão: "Sempre marcando muito forte e buscando os contra-ataques”.


Ruben Páz era a principal preocupação do técnico Jair Pereira, que o considerava o maestro do Racing. "Eles atuam em função do Paz. Seus lançamentos buscam as pontas, principalmente o lado esquerdo", declarou. Mas o time também tinha o ponteiro direito, Claudio Garcia, cujo estilo era comparado ao de Renato Gaúcho, além de Borelli, que era da seleção argentina e também o ótimo goleiro Roa, que era do selecionado olímpico.


Outra preocupação do time cruzeirense era quanto a contusão de Renato Gaúcho na panturrilha esquerda, que o tiraram de campo contra o River e o Olímpia. "Tenho que me cuidar durante o jogo para não levar outra pancada no mesmo lugar", declarou. Coincidentemente, Renato se machucou em dois lances que originaram gols de pênalti contra o River e o Olímpia, no Mineirão. "Os caras estão me quebrando lá na frente e o Paulo Roberto é que ganha a fama. Ele cobra o pênalti e se consagra", brincou.


A diretoria do Cruzeiro previu que a grande final poderia quebrar o próprio recorde nacional de renda da partida contra o Olímpia e, mais uma vez, majorou os preços dos ingressos. Nem os preços altos e a chuva forte que caiu sobre Belo Horizonte foi capaz de desanimar a nação cruzeirense que formou longas filas em busca de um bilhete para o jogão.


Havia uma nítida sintonia entre o time e a torcida, porque a despeito de termos grandes jogadores em campo, vivendo vários deles um momento muito favorável nas suas carreiras, ainda víamos um time determinado, focado, mentalmente muito forte, bem preparado fisicamente, que ocupava com inteligência e entrega todos os espaços do campo.


E o time jogando como um campeão prensou o Racing no seu campo, marcou demais e nem mesmo a chuva torrencial que caia, refreava o ânimo dos torcedores e do time, em sintonia, cada ato de raça era saudado com o incentivo da torcida.

Primeiro jogo da final, no Mineirão, foi disputado debaixo de forte chuva. Foto: Divulgação/Conmebol

Criara-se uma empatia entre o futebol jogado no campo e o sentimento que brotava das arquibancadas, cadeiras e da torcida “geraldina” do Cruzeiro.


A primeira chegada com perigo foi num passe de Paulo Roberto a Boiadeiro que invadiu a área e chutou por cima, com a bola raspando o gol do Racing.


Em seguida, Paulo Roberto rouba a bola do lateral esquerdo Di Stefano e cruza para Renato Gaúcho que vira, mas, é abafado por Roa que faz grande intervenção.


Aos 17 minutos, o meia Luiz Fernando quase abriu o placar. Paulo Roberto cruza, Betinho tenta a bicicleta e chuta errado, a bola fica na entrada da área. Luiz Fernando dividiu com um defensor do Racing e a bola foi para o gol obrigando o goleiro Roa a executar mais uma bela defesa.


Mas aos 31 minutos, o Cruzeiro conseguiu colocar a bola na rede do gol do Racing. O atacante Betinho desarmou Reinoso na extrema esquerda, na corrida ganhou a linha de fundo e cruzou para a área. A zaga do Racing rebateu para fora da área e a bola caiu no pé esquerdo de Roberto Gaúcho que emendou de primeira. A bola desviou num dos defensores do time argentino e enganou o goleiro Roa, morrendo mansamente nas redes do Mineirão. Fazendo Cruzeiro 1x0 Racing. Impossível não me lembrar da gargalhada famosa de Carlos César Franco Gomes, o querido Pinguim, fazendo a descrição pormenorizada do gol, narrado pelo grande Albertinho Rodrigues, ecoando por todo o Mineirão, porque naquele tempo a turma levava era radinho de pilha para o estádio. E onde eu assistia os jogos tinha um cidadão que levava o seu TRANSGLOBE e botava no último volume (rs, rs, rs).


Daí até o final do primeiro tempo a torcida do Cruzeiro fez a festa, mas, em campo o time não estava conseguindo criar chances claras de gol, embora também nada permitisse aos acadêmicos do Racing. Ruben Paz bem marcado nada criava para o time argentino.


No começo do segundo tempo, o Cruzeiro continuava a encontrar as mesmas dificuldades para superar a marcação do Racing, que abusava das faltas.


Eram 8’ da etapa final, quando o zagueiro Cosme Zacantti atingiu com violência o atacante Renato Gaúcho com um pontapé por trás, levou o segundo cartão amarelo e foi expulso pelo árbitro. Não demorou três minutos para o Cruzeiro aproveitar a vantagem de um jogador a mais em campo. Renato Gaúcho recebeu um passe de Boiadeiro e foi a linha de fundo. O cruzamento na segunda trave foi na medida para Roberto Gaúcho colocar de cabeça para o fundo das redes: Cruzeiro 2 a 0. Mais festa no gigante da Pampulha, porque todos viam que havia possibilidade de se abrir a tal vantagem que nos permitiria ir até a Argentina com as duas mãos na taça.

Lance do primeiro jogo entre Cruzeiro e Racing, no Mineirão. Fotos: Arquivo/EM/D.APRESS

Mesmo perdendo de 2x0 o técnico do Racing entendia que precisava recompor a defesa, para evitar um mal maior. Eram 13’ do segundo tempo quando Grondona trocou fazendo entrar Abelardo Vallejos na vaga do atacante Alfredo Graciani.


Mas o Cruzeiro continuou pressionando e a goleada era questão de tempo.


Aos 17 minutos, Roberto Gaúcho cruza da esquerda, Luiz Fernando desvia de cabeça e o zagueiro do Racing evitou o terceiro gol tirando a bola em cima da linha.


Aos 20 minutos, Renato Gaúcho escorou de cabeça um cruzamento de Roberto e Roa fez outra defesa difícil na partida.


De tanto martelar o Cruzeiro chegou ao terceiro gol aos 24 minutos, após Roberto Gaúcho passar por vários marcadores e rolar para Luiz Fernando na entrada da área. O meia ajeitou e chutou rasteiro no canto direito: Cruzeiro 3 a 0 Racing. Desta vez eu lembrei do Lucélio Gomes com o seu bordão: “É disso que o povo gosta....goooooooooollll do Cruzeiro... rumo ao BI da Supercopa”.


O Cruzeiro embalado por uma raça e volúpia impressionantes ia pra cima dos gringos. Numa retomada de bola, Douglas limpa o lance e rola para Paulo Roberto que avança e solta a bomba que passa perto das traves de Roa.


A desvantagem no placar deixou o Racing ainda mais nervoso em campo e, num lance em que colocou a mão na bola interrompendo um passe magistral de Boiadeiro, o lateral direito Jorge Borelli também levou o segundo cartão amarelo e acabou expulso, aos 35 minutos.


O placar já era bom, mas, o melhor ainda estava por vir.


Eram 40’ da etapa final, quando Douglas de novo retoma a bola no meio-campo e dá a bola para Boiadeiro na intermediária adversária. Boi avança, dá um come num argentino e puxa a bola da direita para a canhota, observa o goleiro mal posicionado e manda um canudo na gaveta de Roa, para fechar a conta e passar a régua: Cruzeiro 4 a 0. A torcida alegre cantou “Boi, boi, boi, boi, Boiadeiro...Faz mais um gol pra torcida do Cruzeiro”...E emendou na sequência “Não tem paulista, nem carioca, o Cruzeiro é o BI da Supercopa.”


Se a missão era decidir logo o título no primeiro jogo, o dever foi cumprido. Na Argentina ninguém acreditava numa virada no jogo da volta. "Cruzeiro liquidou o Racing com um resultado quase utópico de se virar", estampou o jornal Clarín.


A renda de Cr$ 2.370.065.000,00 tornou-se o novo recorde nacional. E o incentivo da torcida cruzeirense do primeiro ao último minuto de jogo ganhou elogios dos jornais da Argentina. "Que fortaleza é o Mineirão, onde o Cruzeiro assume o papel de cruel carrasco de cada um de seus visitantes", escreveu o La Nación.


Além dos dois gols marcados, o atacante Roberto Gaúcho foi premiado com a compra do seu passe após o jogo. O Cruzeiro pagou 2 bilhões (200 mil US$) ao empresário Léo Rabello.


Raça, gana, comprometimento, criatividade, entrega, talento e trabalho em grupo...esta foi a grande receita daquela conquista. E fico lembrando também deste espírito de luta e de vontade, que tomavam conta do time, em qualquer campo. O jogo da volta, a partir daquele momento seria só para a confirmação do título.

Réplica do troféu da Supercopa está na sede do Cruzeiro. Foto: Cruzeiro/Divulgação


Uma coisa marcante foi a presença de público nos jogos do Cruzeiro naquela competição em casa:


Cruzeiro 8 x 0 Nacional da Colômbia (64.616);

Cruzeiro 2 x 0 River Plate (66.090);

Cruzeiro 2 x 2 Olímpia do Paraguai (83.724);

Cruzeiro 4 x 0 Racing (78.077).

Média na Competição = 73.126 pagantes (recorde continental).


SÚMULA DA PARTIDA: Cruzeiro 4x0 Racing


☻ Motivo: 1ª partida das Finais da Supercopa 92(ida)

☻ Data, Local, Hora: 18/11/1992 (4ª Feira), Mineirão, Belo Horizonte, 21:00 h


☺ Cruzeiro: Paulo César Borges (1), Paulo Roberto Costa (2), Célio Lúcio (4), Luizinho (3) e Nonato (6); Douglas (8), Boiadeiro (10), Luiz Fernando (17) e Betinho (9) (Cleisson (14)); Renato Gaúcho (7) e Roberto Gaúcho (11).

Reservas não utilizados: Gilberto (12), Arley Alvares (15), Rogério Lage(21) e Tôto (18) DT: Jair Pereira.


☻ Racing Club: Roa (1), Reinoso (2), Borelli (18), Zaccanti (4) e Di Stefano (3); Gustavo Costas (5), Matosas (8) (Felix Torres (9)) e Ruben Paz (10); Cláudio Garcia (7), Graciani (11) (Vallejos (6)) e Guendulain (19).

Reservas Não Utilizados: Bartero (12), Abramovich (14) e Cabrol (15)

DT: Humberto Grondona.


☻ Arbitragem: José Joaquin Torres + Armando Perez /John Jairo Toro (Colômbia).

☻ Cartão Amarelo: Douglas, Betinho, Renato Gaúcho e Roberto Gaúcho (Cruzeiro) +

Roa, Reinoso, Borelli (2 cartões) e Zaccanti (2 cartões) (Racing)

☻ Cartão Vermelho: Borelli e Zaccanti (Racing)

☻ Público Pagante: 78.077 pagantes

☻ Preço dos Ingressos: Geral (Cr$ 15.000), Arquibancada (Cr$ 30.000), Cadeira Numerada (Cr$ 70.000) e Cadeira Especial (Cr$ 100.000).

☻ Câmbio em 18/11/92: 1 US$ = Cr$ 9.170

☻ Recorde Nacional de Renda: Cr$ 2.370.065.000,00= US$ 258,458.56 = R$ 1.008 mil (hoje)

☻ Gols: Roberto Gaúcho (31’ e 57’), Luiz Fernando Rosa Flores (71’) e Boiadeiro (85’).

Um pedido especial desta coluna vai para: Os conselheiros do Cruzeiro Esporte Clube para que parem de brigar por poder pelas redes sociais e entendam que este processo só faz mal ao nosso clube. É tempo de nos unirmos e reverter este quadro muito ruim que está expondo o clube a risco incalculável. Que Deus os ilumine.

As homenagens especiais desta semana vão para: Os grandes cruzeirenses da Torcida Organizada Azulcrinada (Ademar de Carvalho Barbosa, Júnia Drummond, Bernadeth Aleixo, Ivan Drummond, Vágner Pissolatti, José Arbex Filho, Laíse Milan de Souza em nome de toda a torcida), e aos meu amigos cruzeirenses da turma de Metalurgia de 1982 da UFMG (Francisco Xavier de Assis, Jacinto, Jackson Soares de Souza Reis, José Herberth Dolabela da Silveira e Braz Benevenuto de Souza Filho).


E de Conceição do Mato Dentro-MG e região: os irmãos Orlando Augusto e Emerson Carneiro Guerra, Robson Guimarães (um meia direita clássico, que jogava de forma elegante, sem olhar para a bola e sempre fazia gols bonitos) e Renílson Guimarães (o verdadeiro craque da família, embora o Dr. Reinaldinho insista em dizer que foi ele), Paulo Henrique, Zezinho e Antônio Lúcio Carneiro Motta (que herdaram do pai o bom gosto futebolístico), uma homenagem póstuma ao maior camisa 8 do futebol de Conceição que foi o gigante José de Souza Morais ou “Jujuca”, cracaço do Esporte Clube Conceição, que fazia relativamente poucos gols, mas, marcava e armava o jogo como ninguém. E por último deixo aqui um abraço especial a Márcio e Marcelo Brasileiro que foram dois craques de bola, grandes cruzeirenses e que sempre encontravam comigo nas grandes jornadas do Cruzeiro.


“Cruzeiro, Cruzeiro Querido...Tão Combatido, Jamais Vencido"


Por: João Chiabi Duarte - @JoaoChiabDuarte

Edição: Renata Batista - @Re_Battista

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