• Vinícius Fortunato

A história da bola que apresentou para Minas Gerais seu verdadeiro dono

Quem tem a oportunidade de visitar a sala de troféus do Cruzeiro na sede do Barro Preto é um privilegiado. Acredito que assim como eu, devem ficar orgulhosos vendo as duas taças da Libertadores, nossas seis taças da Copa do Brasil, as quatro do Brasileiro... Enfim, é tanto troféu que fica até difícil falar de todos. Acontece que no meio de tantos canecos, um em particular passa despercebido. Ao lado de tantas taças, um item chama atenção, uma bola velha, daquelas de couro, com costuras altas. Para os mais distraídos ela pode passar despercebida, porém o que poucos sabem é que ela representa uma das maiores conquistas que esta instituição possui, ela representa o dia que o ainda Palestra Itália falou a todos: “Eu serei a maior instituição esportiva de Minas Gerais”.

Bola (em destaque) exposta na sala de Troféus do Cruzeiro


Bom, para contar um pouco sobre está inusitada história temos que voltar ao ano de 1928. Ainda uma criança em fase de crescimento, o Palestra Itália estava engatinhando no cenário esportivo, afinal eram apenas sete anos de criação. Ainda que fosse pouco tempo o Palestra surpreendia, com apenas sete anos já tinha seu primeiro título mineiro, conquistado em 1926 e ainda tinha o orgulho de dizer que ostentava seu próprio estádio (nosso lendário Estádio do Barro Preto, situado onde é hoje nossa sede social do Barro Preto).


Apesar do crescimento acelerado, os palestrinos sabiam que precisavam de mais e quando digo mais eu falo de títulos, afinal todos sabemos, um clube se faz grandioso devido a suas conquistas. Apesar de poucas conquistas na década de 20, nesta época quem dominava o futebol mineiro era o América. De 1915 a 1927, com treze disputados, o Coelho possuía incríveis dez títulos e o mais surpreendente, de forma consecutiva. Com o declino do América o posto de dono de Minas Gerais ficava vago e em 1928 o Palestra começou a reivindicar este posto.


O Palestra iniciou sua campanha no dia 8 de abril de 1928 de forma avassaladora, vencendo o Syrio Horizontino por 8x2. A vitória dava indícios de que coisas boas viriam. Nosso ápice veio no dia 17 de junho, quando o Palestra aplicou a maior goleada de seus até então 98 anos de história, regidos pelo saudoso Ninão, o quinto jogador que mais balançou as redes por nossa instituição. O time massacrou o Alvares Nogueira com um placar histórico de 14x0. Ao final do campeonato o Palestra chegou em primeiro e se sagrou campeão, Ninão foi o artilheiro da competição com 43 gols um recorde que até hoje nunca foi quebrado por estas Minas Gerais.


Nota importante: Como diz uma famosa música nossa “a história não mente, jamais vai mudar, sempre veremos as frangas perder e chorar”. Nunca uma música refletiu tão bem a história de um confronto. Em 1928 o Alt. Mineiro já mostrava seu DNA chorão e tentou levar o título no tapetão alegando uma irregularidade na transferência do jogador Carazzo, que deixou o Palestra Itália de São Paulo para vir para seu chará belorizontino. Acontece que tudo foi esclarecido, tudo passava de uma grande armação e o Palestra manteve seu título conquistado dentro de campo.


Em 1929, o Palestra tinha o dever de defender seu título e depois da confusão com o Alt. Mineiro sabia que para ser campeão, nosso time tinha que ser implacável, não bastava mais ficar na frente, tinha que mostrar algo a mais. E o bicampeonato veio de forma contundente, de forma invicta, além de não perder nenhum de seus jogos nossa esquadra sequer empatou, foram 16 vitórias e novamente Ninão artilheiro do campeonato com 33 gols. Devido ao seu desempenho brilhante o time liderado por Maturi Fabbi um experiente treinador, com passagens pela seleção nacional ganhou a alcunha de “time-poesia”. Era bonito ver o Palestra jogar, o time jogava por poesia, não bastava vencer, tinha que encantar. Fato comprovado com os placares elásticos da campanha, 8x0 no Palmeiras; 11x0 no Alvares Nogueira; 10x2 no Santa Cruz; 8x1 no Guarany; 5x2 no Atlético-MG. Foram alguns dos resultados massacrantes do “time-poesia”.


Chegamos a 1930, o ano da consagração, o ano em que o Palestra enfim disse a todos que seria o dono de Minas Gerais e como já estamos acostumados, isso incomodou muita gente.

Novamente de forma invicta conquistamos o tricampeonato, não era mais surpresa para ninguém que o Palestra era o melhor time de Minas. Assim como o time que defendia, Ninão foi artilheiro e conquistou o posto pela terceira vez consecutiva.

Dentro de campo o Palestra tinha a liderança técnica de Ninão e Nininho, os irmãos Fantoni (prometo em breve contar a história da família Fantoni no Cruzeiro), a supremacia era tamanha que terminamos o campeonato com 70 gols marcados e apenas 7 gols sofridos. Nosso rival de Vespasiano decidiu abandonar a disputa e não jogou o segundo turno do campeonato, a Liga Desportiva Mineira decidiu anular todos os jogos do Atlético, zerando assim seus pontos, porém curiosamente o time não foi rebaixado, embora tenha ficado em último lugar o clube se sustentou na primeira divisão usando seu poder político como influência.



O Palestra chegava ao topo, conquistava um tricampeonato antes de mesmo de completar 10 anos de existência, para entender melhor o significado desta conquista, times tradicionais e considerados importantes da época jamais haviam vencido o torneio três vezes de forma consecutiva, caso por exemplo de Atlético Mineiro e Villa Nova.


No início desta crônica falei sobre o curioso item em nossa sala de troféus, a bola de couro velha, ela tem uma ligação direta com este tricampeonato. Por determinação da Liga Desportiva Mineira de Desportos Terrestres, o clube que conquistasse o campeonato da cidade três vezes de forma consecutiva teria o direito de ficar com a Taça da Cidade de forma definitiva. Contrariando o que ela mesma tinha decretado a Liga Desportiva voltou atrás e não entregou a taça ao Palestra. Um time de imigrantes, trabalhadores de chão de fábrica desafiou os times da alta burguesia. Os esquecidos do Barro Preto mostraram para os até então grandes times de Minas que o Palestra já era GIGANTE, talvez por isso a Liga se revoltou e boicotou a entrega da taça. Fato bem parecido com as atitudes de uma tal FMF, né?


Foi então que sem se prender a orgulhos bestas, os palestrinos tiveram a ideia de usar a bola do último jogo daquele campeonato como o troféu daquela conquista e desde então esta bola está no meio das nossas taças.

A bola está ali para mostrar para todos que nossa natureza é ser gigante desde o início, para mostrar para todos que não adianta ter político, federação e seja quem for do seu lado, porque quando a bola rola amigo, a única verdade que prevalece é que de Palestra a Cruzeiro não importa o que aconteça SEMPRE SEREMOS CAMPEÕES. Ah, e não podemos esquecer, desde 1921 sendo campeão e na primeira divisão.



VAMOOOOOOOOOOOOO CRUZEIROOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!


Por: Vinicius Fortunato - @fortunatoxD

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