• Ezequiel Silva

Clube-empresa, o projeto que promete tornar o Cruzeiro viável novamente

Atenção: este é um conteúdo escrito de torcedor para torcedor com o intuito de informar acerca do projeto clube-empresa. Não expressa necessariamente a posição oficial do Cruzeiro Esporte Clube. Os links com as fontes e as referências estão ao final do texto. Boa leitura!


O torcedor cruzeirense tem assistido incrédulo a uma série de acontecimentos estranhos à grandiosa história do clube, desde 2019. Corrupção de diferentes maneiras, dívidas impagáveis, rebaixamento à Série B, uma tortuosa luta para retornar à elite, resultados pífios contra equipes de menor expressão, jogadores e técnicos medíocres… enfim, um pesadelo infinito.


Diante desse cenário, o Cruzeiro perdeu credibilidade junto aos investidores, com alguns apontando que no formato atual de administração (clube associativo) é inseguro colocar dinheiro no clube, ou até mesmo que o Cruzeiro pode se tornar insolvente, ou seja, as dívidas serem maiores do que o próprio patrimônio, caso não faça a transição para o modelo de clube-empresa o mais breve possível.


No meio desse espinhoso caminho vêm surgindo algumas ideias na tentativa de resgatar a dignidade e o respeito do clube diante da própria torcida e do mercado do futebol, enquanto o time tenta se virar dentro de campo.


Algumas ideias não deram certo como esperado, e outras prometem surtir efeitos a médio e longo prazo. Uma dessas propostas é o clube-empresa, apontado por especialistas em gestão do esporte e grandes empresários como a solução mais viável para, literalmente, salvar o Cruzeiro do fim.


Sociedade Anônima do Futebol (SAF)


No Brasil, já é permitido que um clube como o Cruzeiro, ou seja, uma associação sem fins lucrativos, faça a transição para o modelo de clube-empresa. Mas o Projeto de Lei n° 5516/2019, de autoria do Senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), torna essa transição para clube-empresa mais atrativa para as atuais associações de futebol. Tal projeto cria a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), que estabelece um regime especial de incentivos fiscais para que os clubes migrem para o sistema de clube-empresa, podendo refinanciar suas dívidas e se tornarem mais confiáveis para os investidores.


A SAF refere-se exclusivamente ao futebol, portanto, permite ao clube abrir o seu departamento de futebol para que investidores administrem esse setor. Na prática, seria criada uma empresa de capital aberto com diversas obrigações diante do mercado financeiro, exigindo dela uma gestão responsável e moderna. De acordo com o estatuto do Cruzeiro (artigo 1º), o clube deve ser dono de 51% das ações dessa nova empresa, com os outros 49% pertencendo aos investidores.


É essa nova empresa que administraria todo o futebol do clube a partir de então: contratando e dispensando jogadores e técnicos, administrando direitos de imagem e cotas de patrocínio, entre outros, a depender do contrato fechado entre o clube e o investidor.


Tendência mundial


Na Europa, principal vitrine do futebol, 96% dos clubes da primeira e segunda divisão das cinco principais ligas são empresas. Segundo a empresa de consultoria EY, na Inglaterra, na Itália e na França todos os clubes que disputam as duas principais divisões são entidades privadas; 90% das equipes espanholas e 86% das alemãs também seguem o modelo de clube-empresa.


Entre os gigantes, apenas Real Madrid e Barcelona ainda se mantêm no formato associativo, somente porque conseguiram demonstrar que são clubes rentáveis. O formato clube-empresa é adotado desde o final dos anos 1990 na Europa, e em alguns países a transição foi realizada de maneira obrigatória e por lei.


Mudança de nome, cores ou escudo


Essa questão preocupa boa parte dos torcedores. O Projeto de Lei nº 5516/2019 preserva esses direitos ao clube, e segundo o estatuto do Cruzeiro a empresa criada para administrar o futebol não teria autonomia para realizar tais mudanças sem antes consultar o clube social. O estatuto determina, em seu artigo 82, que a empresa seja registrada como Cruzeiro Esporte Clube S/A, adotando as cores, o pavilhão, o escudo, os símbolos e os uniformes do Cruzeiro Esporte Clube.


Vantagens


Na visão dos clubes, o grande atrativo para a migração é a possibilidade de refinanciar as suas dívidas e adquirir novas fontes de receita. Para o poder público, a criação da SAF vai aumentar a arrecadação de impostos e garantir o pagamento das dívidas dos clubes com os cofres públicos em tempo pré-determinado.


Os defensores do clube-empresa garantem ainda que o torcedor verá seu clube sendo administrado de forma mais transparente do que é hoje, crescendo em estrutura, preservando as jovens revelações no time por mais tempo, e investindo em grandes jogadores de maneira responsável e profissional.


Risco


O principal risco apontado pelos especialistas é a possível falência do clube-empresa, que como qualquer outra organização estará sujeito à prestação de contas dos seus atos. Apesar de todo o controle ao qual está subordinada, a administração do clube-empresa não está livre de más gestões. Caso ocorra uma falência da S/A, o clube pode entrar em uma grave crise financeira e esportiva.


Exemplos no Brasil


Os clubes-empresa existentes no Brasil não seguem um padrão, cada um tem o seu próprio modelo de parceria. O Red Bull Bragantino, por exemplo, é um time da empresa austríaca Red Bull, que comprou 100% dos títulos associativos do Clube Atlético Bragantino em 2019 e passou a administrar o futebol do clube. O time é gerido por um CEO designado pela companhia. O presidente do antigo Bragantino hoje ocupa um cargo de presidente de honra.


A Ferroviária S/A é uma empresa criada em 2003 na cidade de Araraquara/SP para gerir a Associação Ferroviária de Esportes, que passava por uma grave crise financeira. Neste caso, existe um presidente e um conselho administrativo que ditam os rumos da empresa, que controla totalmente o futebol da equipe paulista. O clube social (salão de festas, piscinas, quadras etc) não existe mais.


A Botafogo Futebol S/A é uma empresa que administra o departamento de futebol do Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto/SP. No caso do Botafogo, a empresa investidora fez um aporte de R$8 milhões em 2019 e passou a controlar o setor de futebol do time ribeirão-pretano, explorando ingressos, transações de atletas e arcando com salários, infraestrutura do setor, entre outros. O clube social, o Botafogo FC, funciona nos moldes associativos (presidente, conselho deliberativo etc) e recebe um repasse das arrecadações da S/A, que é usado para honrar as dívidas acumuladas e para manutenção, e ficou com o direito de gerir as lojas do clube, escolinhas e cadeiras cativas no estádio da equipe.


Outro exemplo é o do Figueirense Futebol Clube, de Santa Catarina, que em 2017 criou a empresa Figueirense LTDA e repassou a administração do setor de futebol a um investidor. O Figueirense FC (clube associativo) detinha 5% dessa empresa, enquanto os outros 95% eram de uma empresa investidora. O contrato previa 20 anos de vigência e contemplava algumas metas. Mas após um ano e meio, a Figueirense LTDA não honrou diversos compromissos, inclusive atrasando salários e deixando de fazer repasses ao clube social, e o contrato acabou sendo encerrado pelas partes, com o Figueirense FC correndo risco de rebaixamento na Série B do Campeonato Brasileiro e até perdendo um jogo por W.O (contra o Cuiabá, pela 17ª rodada da Série B de 2019).


O próprio Cuiabá Esporte Clube é um clube-empresa. A equipe mato-grossense foi fundada em 2001 pelo ex-jogador Gaúcho. No início, era um projeto social para crianças, depois virou uma equipe amadora e em 2009 foi adquirido pela família Dresch - controladora da empresa Drebor, gigante do setor de recapagem de pneus. Os Dresch administram o clube-empresa desde então, sendo os responsáveis diretos pela ascensão do Cuiabá à Série A do Campeonato Brasileiro em 2020.


Como está o andamento?


O projeto de lei foi aprovado no Senado Federal no último dia 10 de junho. Após isso, foi enviado à Câmara dos Deputados para apreciação e, se aprovado, parte para a sanção do Presidente da República.


O estatuto do Cruzeiro permite a mudança para clube-empresa, mas há divergências quanto ao clube (associação) ser detentor de 51% das ações na nova empresa. Há dúvidas se esse modelo seria atraente para os investidores, que não teriam o controle total da empresa e nem a administração do departamento de futebol sem sofrerem interferências dos integrantes do clube social. Nesse caso, segundo alguns especialistas, a criação de um fundo de investimento seria a melhor opção.


O atual presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, é um defensor do projeto clube-empresa. Segundo ele já divulgou em suas redes sociais, e o próprio Cruzeiro em seu site oficial, o clube vem se preparando para ativar a transição logo que o projeto de lei seja sancionado. Conselheiros têm se reunido informalmente para buscar um alinhamento do assunto nas discussões internas do clube, e a diretoria tem ouvido empresários próximos ao clube para esclarecer as dúvidas e debater a questão.


Ao torcedor, resta esperar que o time reaja dentro de campo e que os administradores tenham consciência da importância e da abrangência dos seus próximos passos na condução do Maior de Minas.


Um abraço aos amigos e amigas do DebateZeiros!




Por: Ezequiel Silva - @ezequielssilva89

Edição: Renata Batista - @Re_Battista







Fontes e referências:


Estatuto do Cruzeiro Esporte Clube: https://www.cruzeiro.com.br/pagina/show/61


Matéria do Globo Esporte MG sobre o estatuto do Cruzeiro Esporte Clube e sobre a reunião informal realizada por conselheiros para discutir o projeto clube-empresa: https://ge.globo.com/futebol/times/cruzeiro/noticia/estatuto-preve-obrigacao-de-aprovacao-do-conselho-para-transformacao-do-cruzeiro-em-empresa.ghtml


Matéria do site oficial do Cruzeiro informando os detalhes da reunião entre a diretoria e empresários cruzeirenses para debater o projeto clube-empresa: https://www.cruzeiro.com.br/noticia/show/18987/diretoria-do-cruzeiro-amplia-debate-sobre-projeto-clube-empresa-e-realiza-primeira-reuniao-com-empresarios


Matéria da Agência Senado apontando os principais pontos do texto aprovado do Projeto de Lei 5516/2019: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/06/10/veja-os-principais-pontos-do-projeto-que-viabiliza-o-clube-empresa


Jornal O Tempo noticiando a aprovação do Projeto de Lei 5516/2019 no Senado Federal: https://www.otempo.com.br/superfc/senado-autoriza-clubes-de-futebol-a-se-transformarem-em-empresas-1.2497453


Matéria do Superesportes MG sobre a aprovação do Projeto de Lei 5516/2019 no Senado Federal: https://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/futebol-nacional/2021/06/10/noticia_futebol_nacional,3919726/senado-aprova-projeto-de-clube-empresa-e-cria-sociedade-anonima-do-futebol.shtml


Reportagem da Rádio Itatiaia sobre o projeto clube-empresa: https://www.itatiaia.com.br/noticia/clube-empresa-entenda-o-projeto-que-passou-pelo-senado-e-e-visado-por-america-e-cruzeiro


Matéria do Superesportes MG sobre a tendência do formato clube-empresa na Europa, baseado em estudo da empresa EY: https://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/futebol-nacional/2021/01/14/noticia_futebol_nacional,3885726/comum-na-europa-modelo-de-clube-empresa-pode-ser-espelho-para-o-brasil.shtml


Matéria do Globo Esporte SP sobre a ascensão do Red Bull Bragantino: https://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/futebol/times/bragantino/noticia/investimento-milionario-e-novo-nome-a-ascensao-do-bragantino-em-dois-anos-sob-nova-gestao.ghtml


Matéria do Blog do Rodrigo Mattos sobre a criação do Red Bull Bragantino: https://rodrigomattos.blogosfera.uol.com.br/2020/01/07/como-red-bull-criou-no-bragantino-um-modelo-diferente-de-clube-empresa/


Site da Ferroviária S/A: https://ferroviariasa.com/sobre-a-ferroviaria/


Site do Botafogo Futebol S/A: https://botafogofutebolsa.com.br/botafogofutebol-sa/


Matéria da ESPN sobre o modelo adotado pelo Botafogo/SP para gerir o seu futebol através de um clube-empresa: https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/7257175/cruzeiro-estreia-serie-b-contra-botafogo-sp-clube-sa-possivel-modelo-futuro-celeste


Matéria do especialista Rodrigo Capelo sobre a criação do Figueirense LTDA e os riscos do clube-empresa: https://globoesporte.globo.com/blogs/blog-do-rodrigo-capelo/post/2019/08/22/clube-empresa-entenda-a-parceria-que-privatizou-o-futebol-do-figueirense-e-esta-em-crise.ghtml


Reportagem da Exame sobre a falência do Figueirense LTDA: https://exame.com/negocios/o-que-deu-errado-com-o-figueirense-o-clube-empresa-falido/


Matéria do Diário de Cuiabá repercutindo outra do Valor Econômico sobre a administração do Cuiabá Esporte Clube pela família Dresch: https://www.diariodecuiaba.com.br/cuiaba-urgente/jornal-valor-economico-conta-a-saga-dos-dresch-em-mato-grosso/566976


Entrevista do empresário Aquiles Diniz ao jornalista Jaeci Carvalho: https://www.youtube.com/watch?v=UKNvkRHkze0