• Ezequiel Silva

Gigantes tombam, vivem fases difíceis… mas, gigantes nunca deixam de ser gigantes!

Certa vez, para encerrar uma discussão com um torcedor inconveniente de um time rival, alguém sentenciou: "time grande não cai!". E a partir de então, nós, meros torcedores mortais, acreditamos na tal frase e começamos a seguir o mantra. Os jornais fizeram manchetes, as torcidas confeccionaram faixas e camisas com os dizeres, os clubes acreditaram.


Pois bem, eis que o destino nos prega algumas peças. E a máxima foi caindo por terra ano após ano, até que chegou a vez do nosso Cruzeiro. Não acreditamos, não aceitamos, muitos ainda não conseguiram assimilar o baque. Pior do que a queda, foi não subir. Isso fez muita gente desacreditar, dizer que vai abandonar: "e toda aquela corrupção?", "e esse time horrível?", "pra mim, o Cruzeiro acabou!".


Mas você sabia, torcedor, que os maiores clubes do mundo já passaram por períodos tão ruins (ou piores) quanto à atual fase do Cruzeiro?


Óbvio que quando se trata do nosso clube as coisas ficam piores. Sentir na pele a dor de um rebaixamento não tem descrição. Sofrer chacota, ser apontado como mau pagador, ver um time terrível em campo... nada disso é bom.


Falar sobre isso não se trata de amenizar ou justificar as mazelas atuais, mas para refletir e entender que o nosso clube não é intocável ou o único que vivencia momentos de reconstrução.


Vamos começar pelo nosso Cruzeiro


O jovem Palestra Itália, fundado em 1921, fez seu primeiro jogo contra o América-MG em julho daquele ano. Perdeu por 2x0. A primeira vitória do Palestra sobre o América-MG veio depois de 6 anos, e levou 12 jogos (9 derrotas e 3 empates) até acontecer. O América-MG era o principal time da cidade naquele período - foi decacampeão entre 1916 e 1925.


O Cruzeiro, em sua história, viveu alguns altos e baixos. Você sabia que o clube passou 11 anos sem vencer o Campeonato Mineiro? Foi entre 1945 e 1956, coincidentemente logo após a construção do estádio JK, no Barro Preto, onde o clube assumiu diversas dívidas. O Cruzeiro precisou apostar nas categorias de base e a redenção só veio após 1959, quando o clube entrou na maravilhosa década de 1960.


Nos anos 1980, período das “vacas magras”, o Cruzeiro ganhou apenas 2 estaduais: 1984 e 1987. Para ser mais específico, entre 1978 e 1989, o Cruzeiro venceu duas das 12 edições do estadual, e o rival venceu as outras dez - seis seguidas - com o Cruzeiro sendo vice em todas. E nem por isso os guerreiros que vestiam a camisa estrelada nas ruas e seguravam bandeiras azuis nas arquibancadas desistiram.


Agora vamos a outros casos expoentes no futebol


Muita gente se lembra da Batalha dos Aflitos, transformada em filme pela torcida do Grêmio. Uma partida épica, o ápice da volta do clube gaúcho à primeira divisão em 2005. Mas o que muitos não sabem, ou não se lembram, é que o Grêmio já caiu duas vezes. A primeira vez foi em 1991 - quando já era Campeão do Mundo - com uma equipe considerada boa na época. Na década anterior, o Tricolor viveu seu ápice: campeão brasileiro (1981), da Libertadores e do Mundo (1983), e hexacampeão gaúcho (1985-86-87-88-89-90). Mas sucumbiu a uma sequência de maus resultados.


O Grêmio jogou a Série B, e só voltou graças a uma mudança de regulamento para o Brasileiro do ano seguinte. Ainda na década de 1990, levantou outra Libertadores (1995), um Brasileiro (1996) e duas Copas do Brasil (1994 e 1997), e rivalizou com o Cruzeiro nas principais competições.


Ainda no Brasil, o Fortaleza passou oito anos na Série C do Brasileiro (entre 2010 e 2017) , batendo na trave sempre no jogo que definia o acesso: isso ocorreu em 5 temporadas seguidas. A equipe finalmente voltou, foi campeã da Série B no ano do seu centenário e conquistou a Copa do Nordeste pela primeira vez. Hoje é exemplo de gestão.


Todos que acompanham futebol conhecem o caso do River Plate, que caiu em 2011 na Argentina, voltou um ano depois, e virou o bicho-papão da América na década e tornou-se maior do que era antes da queda.


Na Colômbia, o América de Cali, um dos maiores clubes daquele país - atualmente o segundo maior campeão nacional -, e que nos anos 1980 chegou a disputar três finais consecutivas da Libertadores (1985-86-87), caiu em 2011 e ficou na Segundona por cinco anos. Voltou apenas em 2016. Em 2019, reconquistou o Campeonato Colombiano. No ano seguinte, veio o bi - o 15º título nacional da sua história.


“Mas o futebol colombiano é fraco.” Beleza!


Vamos para a Europa. Nem falo da Inglaterra, país onde não existem incaíveis. Sim, todos já caíram. Manchester United, Liverpool, Arsenal... o hoje milionário Manchester City já caiu 11 vezes. A última em 2000/01. Em 1997/98, caiu para o terceiro nível.


Na Espanha, o Atlético de Madrid atualmente carrega a fama de ser um dos grandes do país, batendo de frente com Real Madrid e Barcelona. Mas a equipe colchonera já passou por maus bocados: foi rebaixada três vezes, a mais recente em 2000, quando passou dois anos na Segunda Divisão.


Na Alemanha, Bayern e Borussia já visitaram a Segundona.


Na Itália, só a Internazionale nunca caiu. Sim, os gigantes Milan e Juventus já foram rebaixados. Em ambos os casos por motivos extra campo: manipulação de resultados que renderam inclusive processos na justiça comum e até prisões. O Milan caiu em 1980, voltou em 1981, caiu de novo em 1982 - dentro do campo - e subiu em 1983. No final daquela década, foi bicampeão da Liga dos Campeões e do Mundo em 1989 e 1990.


A Juventus caiu em 2006, envolvida no escândalo Calciopoli, voltou um ano depois. Na década seguinte, venceu 9 Campeonatos Italianos seguidos entre 2012 e 2020, firmando-se de maneira absoluta como a maior campeã nacional.


Antes que eu me esqueça, gostaria de citar o caso do Rangers, que junto com o Celtic, carrega o futebol escocês nas costas. Ambos detêm 106 títulos das 125 edições do campeonato daquele país. O Rangers é o maior campeão (55) e o Celtic tem 51.


Após literalmente falir, o Rangers precisou ser refundado. Recomeçou do zero na quarta e última divisão daquele país em 2013. Subiu ano após ano. Na Segunda Divisão, precisou jogar duas temporadas para voltar à elite. Ao todo, foram 4 anos longe da Primeira Divisão. Em 2021, o clube conquistou o título escocês depois de 10 anos.


Outros exemplos


Na Inglaterra, o Liverpool ficou de 1990 a 2020 sem vencer o Campeonato Inglês - quando ganhou pela última vez, o clube era o maior vencedor com 18 títulos, hoje é o segundo (o Manchester United é o maior com 20).


Voltando ao Brasil, o Corinthians ficou 23 anos sem ganhar nenhum troféu entre 1954 e 1977. Na época, o clube paulistano já era o maior campeão estadual com 15 títulos, hoje lidera com 30 troféus. Além disso, segundo pesquisas, tem a maior torcida daquele estado e a segunda maior do país.


E qual desses clubes acima não é gigante? Qual deixou de ser admirado depois de algum período de reconstrução? A grande certeza é que são clubes respeitados, e principalmente, com torcidas fiéis que não abandonaram o barco nos piores momentos. Pelo contrário, os clubes foram abraçados como nunca, e foram carregados nos ombros por seus adeptos.


O torcedor e a torcedora do Cruzeiro precisam entender que todos os grandes clubes passam por momentos difíceis, fases de reconstrução, quase falências, perdas de patrimônio... isso é bom? Claro que não! Mas o futebol, a longo prazo, costuma ser cíclico.


Ah, como seria bom viver eternamente nos anos 1990, assistindo aos bons times do Cruzeiro na melhor década do clube. Ou acordar novamente em 2003 e ver de perto a Tríplice Coroa. Ou voltar no tempo até o ano 2000 e reviver aquele gol do Giovanni.


E se os palestrinos mineiros tivessem desistido do sonho em 1942, quando o governo brasileiro obrigou o Palestra Itália a trocar de identidade? E se Felício Brant tivesse desistido do Cruzeiro no final dos anos 1950, quando o clube não tinha dinheiro e só contava com atletas jovens no elenco? E se os torcedores tivessem debandado nos anos 1980, quando viram o rival nos massacrar seguidamente e assistiram ao Cruzeiro se desfazer do estádio do Barro Preto?


Essa é a reflexão: os momentos, bons ou ruins, passam. O clube e a torcida ficam. A diferença está em como ambos encaram esses momentos, principalmente os maus. Ficar e lutar é para poucos.


Foto: Diego Domingues


Nunca disseram que a recuperação do Cruzeiro seria fácil. Mas uma coisa é certa, muitos gostariam de estar aqui lutando neste momento, ajudando de alguma maneira, e infelizmente não terão essa oportunidade. A fase não é nada boa, tem muita gente torcendo contra. Mas é uma fase, não é uma verdade eterna.


Abraços aos amigos e amigas do DebateZeiros!





*Este texto é em memória dos grandes cruzeirenses Dona Salomé, Iris Ávila, RenatinhaVamos Cruzeiro” e Pablito.


**O blog utilizou informações da Premier League BR, Calciopedia, Trivela, Cruzeiropedia, Grêmiopedia, ESPN, Isto É, Futebol Latino, Futebol Portenho.




Por: Ezequiel Silva - @ezequielssilva89

Edição: Renata Batista - @Re_Battista