• Ezequiel Silva

Uma constelação como identidade de uma nação

Em sua centenária trajetória, as transições são parte do cotidiano do clube mais popular de Minas Gerais. Ao contrário do que os adversários poderiam supor, tais mudanças serviram sempre para unir o povo cruzeirense e aumentar o orgulho das nossas origens. E em 2022, uma dessas transformações completa 80 anos, quando as forjas da Sociedade Sportiva Palestra Itália moldaram o Cruzeiro Esporte Clube.

Foto: Reprodução/Internet


Embora já vivenciasse um processo de abrasileiramento desde a segunda metade dos anos 1920, o clube do Barro Preto e sua gente tiveram que provar o seu valor para o país dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial, quando a Itália e seus descendentes foram declarados inimigos do Brasil. E foi no intuito de inserir-se no sentimento de pertencer ao Brasil que um dos símbolos da Pátria tornou-se a identidade maior do clube a partir de 1942, a constelação do Cruzeiro do Sul.


A Cruzeiro do Sul é um dos mais importantes agrupamentos de estrelas do nosso sistema solar; recebeu essa denominação em 1679, em um mapa estelar publicado pelo cartógrafo francês Augustine Royer. Sua primeira aparição em documentos, porém, data do ano de 1500 em apontamentos feitos por astrônomos da esquadra do navegador português Pedro Álvares Cabral, quando da chegada deste às terras onde hoje é o Brasil.


As cinco estrelas recebem as seguintes denominações: Rubídea (ponta superior da cruz), Estrela de Magalhães (ponta inferior), Mimosa (lado direito da cruz), Pálida (lado esquerdo) e Intrometida (é a quinta estrela, ficando um pouco deslocada da formação). O braço inferior da cruz serve fundamentalmente para a identificação do Pólo Sul. É a principal constelação do hemisfério Sul, sendo possível avistá-la apenas nesta porção do globo terrestre. A formação aparece em destaque nas bandeiras de alguns países desta área do mundo, como Austrália, Nova Zelândia e o próprio Brasil.


Em dezembro de 1822, logo após o surgimento do Brasil como país independente, o Imperador Dom Pedro I criou a Imperial Ordem do Cruzeiro, uma insígnia para agraciar pessoas com trabalhos relevantes para o progresso da nova nação; a medalha já trazia em seu interior a representação da cruz estrelada. Com a queda do Império, a comenda foi revogada pela Constituição Republicana de 1891.

Insignias da Ordem (Anverso e Reverso) (Acervo do Museu Imperial, Petrópolis)


Em 1932, o presidente Getúlio Vargas instituiu a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, uma nova versão alterada para contemplar apenas personalidades estrangeiras. A nomeação e a entrega da Ordem são, portanto, atos de relações exteriores. Nomes como o revolucionário argentino Ernesto Che Guevara, a rainha britânica Elizabeth II, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin e o piloto francês Alain Prost são alguns dos agraciados com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

Condecoração cedida pelo presidente do Brasil, a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul é um título que homenageia pessoas notáveis nascidas fora do país.


Na campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em solo italiano durante a Segunda Guerra, os veículos utilizados pelos pracinhas exibiam a constelação dentro de um círculo. Também na Itália, os aviões do 1° Grupo de Aviação de Caça (origem da Força Aérea Brasileira) exibiam o símbolo estrelado dentro do escudo junto ao famoso lema “Senta a Púa!”. A referência ao Cruzeiro do Sul é destaque nos quatro símbolos oficiais do Brasil: a Bandeira, o Hino, o Brasão e o Selo Nacional; além dos escudos do Exército e da Aeronáutica.


Do mesmo modo, o Cruzeiro do Sul está presente na Medalha da Inconfidência, a principal honraria do estado de Minas Gerais. Criada em 1952 pelo governador Juscelino Kubitscheck, a medalha é entregue todo dia 21 de abril em cerimônia solene na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, àqueles que se destacam pelos serviços prestados à sociedade mineira.

Medalha da Inconfidência


Mais do que um conjunto de estrelas, o Cruzeiro do Sul é um dos maiores símbolos do Brasil. Uma escolha perfeita para aquele clube que um dia sonhou em inserir-se e ser aceito pelos brasileiros. Uma decisão mais do que acertada para quem sempre soube que o Cruzeiro, assim como o Palestra e o Brasil, já era um gigante por natureza.


Carregar no peito as cinco estrelas do Cruzeiro é ser mais brasileiro, é exaltar a sua história, é ter orgulho do seu passado e da sua origem; é não dobrar-se diante das maiores dificuldades e confiar em um futuro promissor, sendo sabedor que a imagem do Cruzeiro continua resplandecente no formoso céu, risonho e límpido do Brasil.


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Por: Ezequiel Silva - @ezequielssilva89

Edição: Renata Batista - @Re_Battista